quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

A culpa é do professor?!

Há fatos que se repetem todo final de ano. São outros nomes e rostos, mas há algo similar no comportamento de certos estudantes que demonstram imaturidade acadêmica e intelectual. Em geral, é o que não cumpre minimamente os deveres enquanto “acadêmicos”. Felizmente, trata-se de um ou outro caso. Mas, como são desgastantes!!!

Reconheço que os estudantes são submetidos às pressões e exigências que os forçam a adotar “estratégias de sobrevivência”. Isto significa, por exemplo, rifar determinadas disciplinas para concentrar-se em outras com maiores exigências e ‘rigor professoral’. É a necessidade de tirar a nota, de passar de ano! Muitas vezes, a matéria rifada é considerada sem importância ou o professor é tido como pouco exigente, “bonzinho”, “café com leite”. Por que dedicar-se a disciplinas cujos conteúdos parecem nada acrescentar à formação do futuro advogado, promotor, juiz? Pra quê estudar Ciência Política e autores como Tocqueville, Stuart Mill e Karl Marx? Em que isto contribui para passar no exame da OAB ou num concurso público? A desimportância, aliás, é confirmada pela própria organização da grade curricular, na medida em que estas disciplinas são relegadas às sextas-feiras, últimos horários; ou quando se decide pela retirada da disciplina do curso.

Compreendo tudo isto, mas não entendo a facilidade que alguns têm em jogar o problema para o outro. Ora, no início do semestre letivo o professor estabelece prazos, flexibiliza-os a partir das necessidades dos alunos e, mesmo assim, não são cumpridos. O professor solicita trabalho escrito que pressupõe a leitura de um livro, assimilação da teoria e análise. No primeiro dia de aula ele estabelece a data limite para entregar: o último dia do ano. E mesmo assim, não se cumpre o prazo. O aluno deixa tudo de lado, dedica-se à suas prioridades e faz a atividade solicitada de qualquer forma (não vou usar aquela expressão chula e machista). Na verdade, não lê a obra e utiliza o surrado recurso do CONTROL C / CONTROL V, ou seja, plágio. O que pensa este aluno? Que o professor é um relapso e não ler o que solicita? Há algo que justifique tal atitude?

Até compreendo, mas compreender não é aceitar. E o que mais irrita nestes casos não é a atitude em si, mas o jogo de empurra, a transferência de responsabilidade. Se cometo um ato que visa ludibriar alguém e sou descoberto, devo pedir desculpas – que o outro aceita se quiser – e assumir. Ponto! Geralmente a desculpa, às vezes sincera, vem acompanhada de pedido de clemência. Mas não se trata disso, e sim da maturidade, enquanto indivíduos, para assumirmos os nossos atos.

Este tipo de atitude faz do outro o cúmplice, transferindo para ele a decisão. E, de repente, o professor vê-se diante da necessidade de decidir em relação a um problema que não é dele; e se decide pelo “não”, anda fica com a pecha de “chato” ou coisa do tipo. No limite, se não passo de ano ou não me formo porque fui pego numa maracutaia, cometida por minha livre e espontânea vontade, a culpa, a “máxima culpa” é do outro que não quis ouvir os meus argumentos. Ora, mas por que agi desta maneira? Não é mais sensato assumir as conseqüências do meu ato?

Em suma, desculpe a expressão, é um saco: o aluno não faz a parte dele e transfere para nós, professores, deixando-nos diante da situação de aceitarmos ou alimentarmos uma tensão na qual parece que os "culpados" somos nós. É muita imaturidade, é uma demonstração cabal de ausência de condições para exercer a autonomia; é uma confusão imensa entre liberdade e licenciosidade. A liberdade de agir pressupõe a responsabilidade pela ação e pelos efeitos que ela produz. É simples: cada um de nós deve assumir o ônus das nossas próprias decisões.

sábado, 19 de dezembro de 2009

Internet e política



Hitler, Franklin Roosevelt e Getúlio Vargas, souberam como poucos usar o rádio enquanto instrumento político. Quando surgiu a TV, John Kennedy logo percebeu sua utilidade política. Com a Internet não foi diferente. Pouco a pouco os políticos descobriram as vantagens da comunicação virtual: ampliou-se o número de sites político-partidários, blogs, twitter, etc.. Em períodos eleitorais, a Internet transforma-se em mais um campo de disputa. Eles não hesitam em invadir nossos computadores com propaganda eleitoral– muitos devem ter perdido votos por isso.

Por que a Internet faz sucesso na política? Se levarmos em conta a composição social dos usuários temos a resposta: seu público é formador de opinião. O usuário da internet constitui uma elite sócio-econômica – da classe média às grandes empresas, incluindo um setor intermediário com pouco capital econômico mas com certo acúmulo de capital cultural e poder de influência. Isso explica a sua importância política.

Por outro lado, o espectro ideológico na Internet é amplo. A pluralidade de idéias e informações circulando livre e democraticamente, aliado às facilidades da tecnologia, é um fator positivo; mas também negativo: imagine a potencialidade para a difusão de idéias racistas, nazistas, etc.. De qualquer forma, não é por acaso que o uso da Internet sofre restrições em países com governos ditatoriais.

A Internet, advogam os entusiastas, tem potencial para a construção da cidadania e o fortalecimento da democracia. De fato, a rede possibilita condições favoráveis ao acompanhamento e controle dos governantes.

Na Internet, acreditam os mais otimistas, somos todos cidadãos. Para os espíritos mais arrebatados, ela é sinônimo de liberdade e a máxima expressão da democracia. Deslumbrados com as facilidades e possibilidades da rede, os novos jacobinos esquecem que a virtualidade não elimina a realidade social e econômica injusta e desigual. Na verdade, gostemos ou não, a Internet reflete a estrutura de classes e grupos sociais materializada no capitalismo realmente existente.

Somos parte da elite que incorporou o computador ao cotidiano. Muitas vezes, o hábito ofusca a visão e sensibilidade sobre a realidade sócio-econômica. Irmanados em nossas ilhas virtuais, muitos de nós olvidamos um dado simples: a exclusão digital espelha o apartheid social que mantém milhões de pessoas à margem. Enquanto nos irritamos com a lentidão da conexão, com o entulho que recebemos por email, ou com as discussões sobre o sexo dos anjos, os excluídos reais e virtuais tem que matar um tigre a cada dia para terem o direito de viver.

Não obstante, reconhecemos as potencialidades da Internet enquanto meio de ativismo político. Os zapatistas foram pioneiros no uso dessa tecnologia – mas também os grupos fundamentalistas cristãos e a Milícia Norte-Americana nos EUA. Contudo, o exemplo zapatista comprova que a militância virtual é conseqüente na medida em que se vincule a movimentos sociais reais.

É necessário refletirmos sobre o militantismo virtual e até mesmo sobre o significado de escrever e publicar na rede. Não duvido das boas intenções, mas devemos atentar para o auto-engano da supervalorização do meio eletrônico enquanto instrumento de militância. Desvinculada da realidade, a militância virtual pode até alimentar o ego, apaziguar consciências e gerar a ilusão de que convertermos os convertidos. É preciso,porém, reconhecer os limites do ativismo virtual e evitar a ingenuidade dos que imaginam revolucionar a sociedade através de emails ou textos publicados na rede. Para esse tipo de ativismo a revolução está literalmente no ar...
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quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

sábado, 12 de dezembro de 2009

O vestibular

Um dos efeitos perversos do vestibular diz respeito aos dilemas vividos pela escola pública entre a intenção de formar cidadãos e preparar os alunos para este exame. Cindida por essa dupla exigência, insiste em priorizar o método decoreba, ainda predominante nos vestibulares. Os conteúdos precisam ser memorizados e a forma de verificação, a prova, também é, invariavelmente, utilizada como instrumento do poder disciplinador. Eis outro engodo: a memorização de conteúdos não garante a aprendizagem dos mesmos. Em geral, o aluno memoriza para tirar a nota e passar de ano.

A idéia de que o vestibular é democrático é mais um engodo. Igualdade de oportunidades não é o mesmo que igualdade real de condições. Como, em geral, o aluno da escola pública se encontra em situação desvantajosa, por sua condição social e pela realidade de sucateamento da educação, é ilusório imaginar que ele concorrerá nas mesmas condições que o aluno com maior capital cultural e social. É certo que algumas escolas públicas, em geral melhor situadas territorialmente, desmentem o mito de que a eficácia educacional só é possível na escola privada. Mas, sejam instituições ou indivíduos, as exceções confirmam a regra.

A lógica do vestibular, assumida por pais, professores e alunos, camufla o fato de que somos socialmente desiguais, que determinados grupos sociais tem acesso à cultura e à educação para além do sistema de ensino, o qual reproduz e legitima as desigualdades: vitoriosos e fracassados são analisados por pretensos dons e méritos individuais. Para uns o sucesso parece natural (o próprio fato de terem sido vitoriosos o comprovaria); a vitória de uns naturaliza o fracasso da maioria. É preciso observar que a seleção é também anterior ao vestibular.

Ensino privado, cursinhos preparatórios pagos, etc., tudo nos parece muito natural: uns podem pagar a mercadoria educação, outros não. Paciência! O mercado oferece as opções para prepararmos nossos filhos para vencer e temos a liberdade – e o dever, pensam muitos! – de fazer a escolha certa; ainda que essa tenha um alto custo econômico e ainda que necessitemos nos render à agiotagem oficial ou nos submeter a uma excessiva carga de trabalho para manter a renda familiar. Mas mesmo o ingresso no ensino superior pode se revelar uma grande ilusão devido ao processo de desvalorização e inutilidade dos diplomas. Bem, restará a sensação do dever cumprido e da consciência tranqüila.

Será utopismo imaginar a possibilidade de ensino superior publico e gratuito para todos sem a necessidade de processo seletivo para o ingresso na universidade? Ainda que seja utópico por que não pensar em outras alternativas que substituam o vestibular e fortaleçam a escola pública e não se restrinjam apenas a um momento da vida estudantil? Por que não adotar sistema de cotas para negros e para os estudantes oriundos de escolas públicas? Aliás, algumas universidades já o fazem. Não seria o caso de ampliar as vagas no ensino superior público? De investir mais na qualificação profissional e na estrutura educacional?

Contudo, o vestibular predomina. Esse mecanismo vicia e submete todo o sistema de ensino: do fundamental ao ensino médio torna-se o centro das preocupações e tudo é feito em sua função. Até mesmo o fato de o vestibular ter se transformado em fonte de receita para as universidades públicas (algumas chegam a fazer dois vestibulares anuais), também é encarado naturalmente. Quem ganha com o vestibular? A resposta parece óbvia e a pergunta redundante. Mas, confessemos, não nos fazemos essa pergunta nem questionamos a resposta. Em suma, há muitos interesses econômicos e políticos em jogo, daí a necessidade de mantê-lo.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Dedo de Moça

Dedo de Moça

socializando a arte...





Formado em 2007 pelos amigos Leandro Benavide (bateria), Danilo Merss (guitarra/cavaquinho/vocal), Victor Buzatto (contra-baixo), Thalisson Picinatto (teclado/piano/acordeom), Bárbara Trovão (vocal) e Bruno Sebem (percussão), o grupo Dedo de Moça apresenta seu primeiro CD de nome homônimo e composições próprias. O grupo começou com a proposta de inovar em releituras de sambas clássicos, com influências dos mais variados mestres do gênero. Com nove faixas o CD conta com a música “Vai...”, vencedora do 1º Acorde Universitário, realizado em julho de 2008 pela Universidade Estadual de Maringá (UEM), nas categorias: melhor música, melhor arranjo e aclamação popular. As composições são de autoria de Danilo Merss (“Vai...”, “Das flores”, “Choro ao cubas”, “Medo de voltar”, “Clareia”), Thalisson Picinatto (“Melhor pra mim”) e Leandro Benavide (“Por um”, “Aproveite a corrente”, “Bolero em Em”). O primeiro álbum foi gravado na casa do baterista do grupo. A premiação do festival da UEM financiou melhorias para o estúdio, que desde o início é local de ensaio e encontro dos músicos. O grupo atualmente procura novos espaços na cena artística regional com projetos variados, sempre buscando a fidelidade do bom e velho samba.
FICHA TÉCNICA: • Gravado, mixado e masterizado por Stone Ferrari em Maringá-Pr, durante o final de fevereiro e o inicio de maio de 2009. • Produzido e arranjado por Dedo de Moça. • Arte gráfica do disco por Decision comunicação visual. • Arte logotipo pandeiro por Carlos Alves.

blog: http://grupodedodemoca.blogspot.com/

sábado, 5 de dezembro de 2009

Repensar a sala de aula


A educação deve ser para a vida e ajudar o indivíduo a desenvolver capacidades de lidar com as situações reais. Os métodos e currículos devem propiciar um aprendizado com significado e o educando ser concebido como agente do ato de aprender. O professor deve instigar a curiosidade do educando, ser um ‘facilitador’, o ‘suporte’. Para tanto, precisa romper com a ditadura do currículo e o ensino centrado na memorização mecânica de conteúdos. Trata-se de reforçar a autonomia do educando e estimular sua criatividade.

É possível vislumbrar educador e educandos com este perfil, considerando-se a realidade escolar? É possível agir nesta direção quando se restringe a preparar para passar no vestibular e/ou para o mercado de trabalho? E ainda exige-se uma educação que forme para a cidadania crítica. Como compatibilizar tudo isto?

Por quanto tempo uma criança, um adolescente ou mesmo um estudante universitário, consegue prestar atenção à aula? Como querer que o aluno, cujo perfil é cada vez mais influenciado por tecnologias como a internet e o celular, suporte a monotonia da sala de aula e as didáticas obsoletas? Como exigir que concentre-se em exposições sobre conteúdos que nada significam para ele? Como insistir no conteudismo e em práticas docentes nada criativas e esperar que o estudante tenha interesse? É justo criticar o educando pelo ‘desinteresse’? Só aprendemos aquilo que de fato nos interessa, ou seja, quando nos envolvemos plenamente no processo de aprender.

Será que a sala de aula ainda é o lugar privilegiado para aprender? É preciso repensar a organização espacial da escola. Com efeito, trata-se de uma arquitetura criada para disciplinar corpos e mentes. O espaço escolar é uma esfera de poder. Enquanto fator disciplinar funcionou muito bem. Com algumas exceções aqui ou acolá, um certo barulho, etc., a escola conseguiu cumprir sua função disciplinadora. Isto é ainda mais claro nas escolas vinculadas a empresas ou projetos empresariais – geralmente, sob o discurso de que a escola, a universidade, deve preparar os jovens para serem bons profissionais e cidadãos, isto é, submissos mas ambiciosos. Estes serão os que conseguirão vencer a competição no mercado de trabalho e, quiçá, terão sucesso em suas carreiras. Observe-se, no entanto, que o descompasso entre a realidade social e as práticas e teorias predominantes no interior das escolas também comprometem até mesmo a sua função disciplinar. Talvez esteja aí uma das explicações para a crescente indisciplina estudantil, mesmo no âmbito da universidade.

As características fundamentais da escola precisam ser repensadas. A organização espacial, o currículo, os métodos de ensino, a função docente, a relação escola-comunidade, etc., estão em defasagem a realidade social que molda o perfil dos estudantes. É preciso repensar seriamente a função da escola, seu papel na sociedade. A escola talvez ensine, mas falha em educar.

É certo que o discurso e as intenções muitas vezes apontam na direção da superação dos problemas que envolvem o sistema de ensino. Há ótimas teorias pedagógicas e muita discussão em torno delas. Mas isto fica restrito a um pequeno círculo, muitas vezes, intelectuais que não vivem na prática a realidade da sala de aula. Então, o ‘espírito’ não encarna, isto é, a prática professoral no dia-a-dia permanece a de sempre: aula expositiva, escrever no quadro, copiar, avaliar segundo critérios e métodos que pressupõe a memorização, etc. A sala de aula não mudará enquanto forem mantidas as características básicas da escola. É o locus do ensino-aprendizagem que precisa ser questionado.