Há fatos que se repetem todo final de ano. São outros nomes e rostos, mas há algo similar no comportamento de certos estudantes que demonstram imaturidade acadêmica e intelectual. Em geral, é o que não cumpre minimamente os deveres enquanto “acadêmicos”. Felizmente, trata-se de um ou outro caso. Mas, como são desgastantes!!!Reconheço que os estudantes são submetidos às pressões e exigências que os forçam a adotar “estratégias de sobrevivência”. Isto significa, por exemplo, rifar determinadas disciplinas para concentrar-se em outras com maiores exigências e ‘rigor professoral’. É a necessidade de tirar a nota, de passar de ano! Muitas vezes, a matéria rifada é considerada sem importância ou o professor é tido como pouco exigente, “bonzinho”, “café com leite”. Por que dedicar-se a disciplinas cujos conteúdos parecem nada acrescentar à formação do futuro advogado, promotor, juiz? Pra quê estudar Ciência Política e autores como Tocqueville, Stuart Mill e Karl Marx? Em que isto contribui para passar no exame da OAB ou num concurso público? A desimportância, aliás, é confirmada pela própria organização da grade curricular, na medida em que estas disciplinas são relegadas às sextas-feiras, últimos horários; ou quando se decide pela retirada da disciplina do curso.
Compreendo tudo isto, mas não entendo a facilidade que alguns têm em jogar o problema para o outro. Ora, no início do semestre letivo o professor estabelece prazos, flexibiliza-os a partir das necessidades dos alunos e, mesmo assim, não são cumpridos. O professor solicita trabalho escrito que pressupõe a leitura de um livro, assimilação da teoria e análise. No primeiro dia de aula ele estabelece a data limite para entregar: o último dia do ano. E mesmo assim, não se cumpre o prazo. O aluno deixa tudo de lado, dedica-se à suas prioridades e faz a atividade solicitada de qualquer forma (não vou usar aquela expressão chula e machista). Na verdade, não lê a obra e utiliza o surrado recurso do CONTROL C / CONTROL V, ou seja, plágio. O que pensa este aluno? Que o professor é um relapso e não ler o que solicita? Há algo que justifique tal atitude?
Até compreendo, mas compreender não é aceitar. E o que mais irrita nestes casos não é a atitude em si, mas o jogo de empurra, a transferência de responsabilidade. Se cometo um ato que visa ludibriar alguém e sou descoberto, devo pedir desculpas – que o outro aceita se quiser – e assumir. Ponto! Geralmente a desculpa, às vezes sincera, vem acompanhada de pedido de clemência. Mas não se trata disso, e sim da maturidade, enquanto indivíduos, para assumirmos os nossos atos.
Este tipo de atitude faz do outro o cúmplice, transferindo para ele a decisão. E, de repente, o professor vê-se diante da necessidade de decidir em relação a um problema que não é dele; e se decide pelo “não”, anda fica com a pecha de “chato” ou coisa do tipo. No limite, se não passo de ano ou não me formo porque fui pego numa maracutaia, cometida por minha livre e espontânea vontade, a culpa, a “máxima culpa” é do outro que não quis ouvir os meus argumentos. Ora, mas por que agi desta maneira? Não é mais sensato assumir as conseqüências do meu ato?
Em suma, desculpe a expressão, é um saco: o aluno não faz a parte dele e transfere para nós, professores, deixando-nos diante da situação de aceitarmos ou alimentarmos uma tensão na qual parece que os "culpados" somos nós. É muita imaturidade, é uma demonstração cabal de ausência de condições para exercer a autonomia; é uma confusão imensa entre liberdade e licenciosidade. A liberdade de agir pressupõe a responsabilidade pela ação e pelos efeitos que ela produz. É simples: cada um de nós deve assumir o ônus das nossas próprias decisões.



12 comentários:
Fantástico este texto!! Parabéns!! Em alguns momentos/disciplinas sou a aluna que deixa pra depois, pra última madrugada! Também vai meu reconhecimento! (rsrs)
Concordo plenamente contigo Ozaí. Parabéns pela coragem de tratar sobre este assunto. De fato, parece que pesa sobre os ombros de cada professor toda culpa pela desumanidades humanas. Obviamente, como professores temos nossa parcela de resposabilidade, mas a sociedade e os alunos não nos podem atribuir um fardo que não é nosso.
Concordo plenamente professor.. e acho que deve ser feito o que é correto nesses casos... O professor não precisa se sentir culpado por uma atitude causada pelo próprio aluno!
Eu sei que estou falando em um blog de um professor voltado para outros professores mas a minha opinião é a de que o principal responsável sempre é a autoridade e, em uma sala de aula, a autoridade é o professor.
Sem contar que eu acho um tanto equivocado tentar resolver individualmente um problema de ordem estrutural.
Parabens prof, tomei a liberdade de copiar e blogar nos guerrilheiros virtuais,
Obrigada
Hilda Suzana Veiga
Ozaí, eu estou me preparando para dar aulas. Mas tenho em casa um universitário da Uem, com vinte anos de idade e que não é nada diferente do seu aluno. Fiquei pensando ao ler o seu artigo o que tenho feito com a sua criticidade e as vezes seu excesso de narcisismo... Confesso que é bastante difícil mas a linha de crescimento me parece que é da imaturidade para a maturidade, eu acho que ele vai chegar lá uma hora. Abraços, Jaci
Ai, meu amigo, você tem inteira razão, você tem inteira razão...
O pior é que quando o professor de filosofia é de uma universidade privada e precisa fazer vistas grossas a esse tipo de situação se quiser continuar sendo professor.
Graça disse....
Na realidade gostaria de agradecer pelos textos, interessantísmos.
07 de janeiro 2010
Bom dia Ozaí,
As dispendiosas estruturas burocráticas nos diversos níveis de ensino são comandadas por quem? As políticas e práticas de ensino são definidas por quem? Os exames vestibulares, desde a estruturação das provas e aplicação dos testes são elaborados e coordenados por quem?
A sua abordagem retrata uma situação comum e não é raro ver que algumas acusações são fomentadas e partem dos enciumados nobres pares. Ainda bem que não se conhece casos concretos de compra de artigos, teses e trabalhos que poderia ambientar o aluno a querer fazer o mesmo.
A culpa não é do Ozaí, mas é dos outros professores, sim. Não pela falta de caráter de alguém, mas por não se precaverem nas seleções e se descuidarem das práticas diárias. Seus diversos artigos e questionamentos criticando mais uns do que outros, são reveladores do ambiente em que convivemos e que se reproduz na sociedade.
Fazia tempo que não postava comentários em seu blog apesar de sempre acompanhá-lo.
Acredito que a parcela maior de culpa são as condições postas ao aluno.
Quase sempre o aluno possui atividades além de suas possibilidades. Refiro-me ao aluno que estuda, trabalha, namora e assim por diante.
A culpa passa pela conjuntura sócio-econômica de muitos alunos que não possuem tempo hábil para fazer suas tarefas com tranqüilidade devido seus expedientes.
Por outro lado, a culpa está também na falta de maturidade acadêmica do aluno que não consegue perceber que o processo de formação acadêmica deve ser também amplo.
Assim, o mesmo, não se dá conta da importância de matérias e assuntos que em dado momento farão a diferença na sua formação.
J
muito legal!!!!!!!!!
www.blogdoferrari-jus.blogspot.com
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