sábado, 5 de setembro de 2009

A recusa a pensar

“Os filósofos têm apenas interpretado o mundo de maneiras diferentes; a questão, porém, é transformá-lo”. (K. Marx).

“Um curso universitário é concebido como um livro sobre o assunto. Mas alguém pode se tornar culto com a leitura de um só livro? Trata-se, portanto, do problema do método no ensino universitário: na universidade, deve-se estudar ou estudar para saber estudar?” (Gramsci)

Em minha vivência como professor, um dos aspectos que mais chama a atenção é a recusa à reflexão, a pensar. Admira-me que, a despeito de terem condições apropriadas para o exercício do pensamento, os indivíduos prefiram a lei do menor esforço, a preguiça mental. No campus consomem-se conteúdos de maneira excessiva. Solicita-se a leitura de páginas e páginas de textos, livros, etc., a memorização e interpretação. A literatura é tratada de maneira canônica, como textos sagrados. Que o leitor não ouse duvidar da verdade que suas palavras expressam. Exige-se fidelidade. Formam-se leitores de um só autor, de um único livro.

Não se discute o conhecimento, transmite-se. E os métodos de transmissão passam fundamentalmente pelo esquema de cópias. O docente deixa o texto no xerox, o aluno tira cópia, imagina-se que leia e, quando requisitado,“vomita” o conteúdo consumido no ritual do exame. Assim, não é estimulada a pesquisa, o pensar crítico, mas a mera reprodução do conhecimento. Muitas vezes, este “saber” extingue-se tão logo o acadêmico entrega a avaliação.

Fiquei a repensar sobre estas questões a partir da palestra do Prof. Silvio Gallo, que esteve na abertura do I Simpósio sobre o Ensino de Filosofia, na UEM. Ele enfatizou a importância de estimular o ato de pensar. Como professores, devemos nos perguntar se queremos apenas transmitir conhecimentos e levar os alunos a reproduzi-los ou, ao contrário, se almejamos oportunizar experiências de pensamento. Sua opção é pelo ensino ativo, o que significa um convite à reflexão. Dessa forma, o conteúdo é uma ferramenta que não se esgota em si. Pensar é fonte de criação e o papel do professor é favorecer e ajudar a construir pontes para o exercício do pensamento. Silvio Gallo usou a metáfora da ponte, da música do Lenine:

“A ponte não é de concreto, não é de ferro
Não é de cimento
A ponte é até onde vai o meu pensamento”

Gostei da referência, e também da fala do professor Silvio Gallo. E embora concorde, parece-me que a realidade do ensino está muito distante do proposto. O sistema de ensino no campus atua na direção oposta e tende muito mais a destruir as pontes que tentamos construir. Como podemos esperar que nossos alunos sejam professores que priorizem o ensino ativo se eles são estimulados a se limitarem à leitura, memorização e interpretação de textos canônicos? Como eles podem desempenhar o papel de intelectuais criativos se se vêem diante da necessidade de se amoldarem às idiossincrasias dos mestres? Como podem enveredar pelo exercício do pensar se seus próprios professores se recusam a isto e se restringem a ser especialistas sobre este ou aquele autor, ou em detalhes da obra do autor escolhido?

Este evento me fez lembrar a entrevista de Roberto Machado. Procurei em meus papéis e encontrei.* Diz o filósofo: “Caímos numa perspectiva de especialistas num período, num autor, e até mesmo especialistas num livro”. Para ele, “uma das dificuldades da filosofia brasileira é que em geral abdicamos de pensar filosoficamente para fazer unicamente história da filosofia”. Suas palavras são atuais e mostram que o educador precisa ser educado. Mas quem educa o educador, especialmente quando ele se põe arrogantemente como “o especialista”, protegido em sua torre de marfim? Felizmente, há exceções.

__________
* A entrevista foi concedida ao jornal Folha de S. Paulo, de 14 de novembro de 2006, e está disponível em http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq1411200607.htm. Vale a pena ler.
Foto: Abertura do I Simpósio Maringaense sobre Ensino de Filosofia, UEM. (Fonte: http://www.uem.br/index.php?option=com_content&task=view&id=1571)

7 comentários:

Anônimo disse...

Caro amigo, o seu texto sobre A RECUSA A PENSAR é esplendido. Precisamos divulgar este artigo em todas as escolas, e mostrar por que os alunos não estão aprendendo nada na escola.
Devemos ser inovadores e não reacionários como muitos professores estão sendo, com atos de reproduzir conhecimento, está fazendo que as pessoas não consiga ter um uma forma crítica de argumentar e questionar, peço licença a você para divulgar seu artigo no meu blog para provocar a todos uma reflexão a este tema tão importante.

Att DÉBORA MARTINS...

Antonio Ozaí da Silva disse...

Débora,

muito obrigado.
Claro, pode divulgar. Agradeço e permaneço aberto às sugestões, críticas e comentários.

Abraços e tudo de bom,
[Ozaí]

celsooliveira11 disse...

O seu texto e sua preocupação fez-me recordar texto da tese 3 que reproduzo a frente...... “A teoria materialista de que os homens são produtos das circunstâncias e da educação e de que, portanto, homens modificados são produtos de circunstâncias diferentes e de educação modificada, esquece que as circunstâncias são modificadas precisamente pelos homens e que o próprio educador precisa ser educado. Leva, pois, forçosamente, à divisão da sociedade em duas partes, uma das quais se sobrepõe à sociedade (como, por exemplo, em Robert Owen). A coincidência da modificação das circunstâncias e da atividade humana só pode ser apreendida e racionalmente compreendia como prática transformadora.” (Teses sobre Feuerbach Karl Marx 1845) ...educação e circunstâncias delimitadas, o que acredito ser relevante para a docência. A abertura pela leitura com os alunos. Como disse Paulo Freire “...ler é um ato paciencioso”... Reconhecermos humildemente nossas limitações individuais e combater as criadas pela exclusão social. Leitura e paciência, mesmo que sejam os cânones. A leitura aproxima o indivíduo da criação e quando partilhada por gerações diferentes aproxima a novidade podendo sobrepor a passividade.

Lucas disse...

é. as vezes parece um círculo vicioso em que os alunos avessos a atividade critica desmotivam os professores, e os professores desmotivados apenas cumprem os seus cronogramas de ensino para que todos obtenham os seus diplomas.. E a desmotivação dos professores contamina novamente os alunos que levam com a barriga e por aí vai.

eduardo meksenas disse...

Antonio e amigos:

desta vez, sem comentários ao "post".

Manifesto-me para expressar os parabéns pelo número 100 da Revista Espaço Acadêmico.
É desnecessário dizer da importância dessa publicação, e atingir a marca dos "100" é algo prodigioso. Imagino o quanto de esforço e perseverança e idealismo isso tem custado....
Parabéns a todos os envolvido,. E aos leitores também, né?

Agora uma informação: tem uma homenagem ao Professor Paulo Meksenas feita no Congresso dos Sociólogos, realizado há pouco na cidade do Rio de Janeiro.Foi uma bela homenagem, e a matéria traz fotos também.

Pra quem se interessar, é só buscar o site www.ced.ufsc.br, e clicar no link "Homenagem ao Professor Paulo Meksenas", que está num quadro verde, bem na frente.

Um abraço a todos. e aguardemos o nº 200 da REA...

João Vicente Nascimento Lins disse...

Ótimo texto professor, a universidade atualmente atua da mesma forma que o ensino médio e básico, apenas formando mão de obra, quanto mais rápido e especializado em alguma coisa, melhor o profissional para o mercado de trabalho, os alunos se tornaram apenas mera mercadoria, e não há espaço dentro dos departamentos para tentar implementar algo diferente. Estamos caminhando para que a alienação do ser seja a mais completa possível em todos os campos, somos apenas mais uma mercadoria dentro do mercado!

Anônimo disse...

Ola professor!
gostaria de parabenizá-lo pela palestra apresentada na Semana do Serviço Social da Fafipa,
que contribui bastante para o nosso aprendizado.
abraços e até a proxima!

Franciele Nicolette da Silva
2° ano Serviço Social