Às alunas e professoras do curso de Serviço Social da FAFIPA*Estive em Paranavaí, noroeste do Paraná, participando da Semana do Curso de Serviço Social, da Faculdade Estadual de Educação Ciências e Letras de Paranavaí (FAFIPA). A palestra e debate teve como tema: “Democracia e Cidadania no pós-1964”. Procurei fazer um breve histórico sobre a democracia, a luta pela conquista das liberdades democráticas, significado e limites na atualidade. Em sua maioria absoluta composto por mulheres, o público presente demonstrou interesse e foi participativo. As várias questões levantadas mostram preocupação com os rumos da política na atual conjuntura, especialmente os temas que envolvem as instituições como o senado brasileiro que, em tese, deveriam fortalecer a democracia e não desacreditá-la.
A meu ver, a geração jovem tem dificuldades em compreender o significado e importância da democracia, para além da realização de eleições.** Isto ocorre, penso, por restringir a política ao âmbito institucional, isto é, entendê-la apenas como as ações vinculadas à disputa por posições no aparato do Estado e, portanto, a partir dos partidos políticos e das eleições. Ora, o fato de haver eleições não indica necessariamente plenitude democrática (no Brasil Imperial, por exemplo, havia eleições; nos breves períodos democráticos, no pós-1945, também tínhamos pleitos eleitorais, mas boa parte da população não tinha o direito de votar; mesmo durante a ditadura pós-1964 houve eleições municipais, menos nas capitais). Por outro lado, é uma geração nascida a partir do final dos anos 1970, que não participou diretamente das lutas pela redemocratização do país. Esta teve início tão logo os militares tomaram o poder. Vidas foram ceifadas e impuseram-se sofrimentos insuperáveis aos diretamente envolvidos na resistência ao governo militar.
Há a tendência de banalizar a democracia. Especialmente, quando esta se sustenta apenas pela realização de eleições periódicas, quase que uma overdose eleitoral. Mesmo a liberdade de expressão, tão cara e pela qual muitos derramaram sangue e foram assassinados nas câmaras de tortura, parece coisa de intelectuais ou restrita ao interesse da mídia. O estabelecimento do Estado de direito democrático afirma a igualdade de todos perante a lei. Mas esta igualdade formal afronta a realidade social desigual e injusta que se reproduz, apesar da quantidade de eleições e os discursos dos políticos. Estamos longe da igualdade social substantiva.
Não obstante, devemos valorizar as conquistas democráticas e, simultaneamente, criticar seus limites. Essa é uma questão nem sempre compreendida. Como defender a democracia, qualificada por setores da esquerda como “burguesa”, e ao mesmo tempo criticá-la? Como afirmar a importância da conquista do direito de votar e ser votado e ser crítico quanto aos limites da democracia representativa e defender o voto nulo? Parece incoerente. Mas não é! Em outras palavras, devemos valorizar as lutas e as conquistas das gerações que enfrentaram a ditadura militar e, mesmo com a redemocratização e o estabelecimento do governo civil, continuaram lutando para ampliá-la. Por outro lado, devemos apontar os limites teóricos e reais desta democracia na atualidade e lutarmos para aprofundá-la. Isto exige pensar e agir para além da política partidária e institucional, em todos os âmbitos da sociedade. A democracia não é só política, mas deve ser também, e essencialmente, econômica e social.
Ps.: Após o evento, recebi email sobre a “Exposição Anistia 30 anos: uma visita à história recente do Brasil”. Pena que não li a tempo de compartilhar neste evento. Seria excelente para ilustrar a importância e significado da luta pela democracia. O legado que nos deixaram precisa ser valorizado e uma forma de valorizar é lutar para ir além da democracia entendida apenas como votar em eleições. Vale a pena ver e refletir sobre esta exposição. Eis o link: http://www2.fpa.org.br/portal/modules/news/index.php?storytopic=1828
Parabéns à Fundação Perseu Abramo pela iniciativa!
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* Eles, alunos e professores, também estão incluídos, é claro. É que elas são a maioria absoluta.
** Escrevi uma reflexão sobre este tema na Revista Espaço Acadêmico, nº 48, maio de 2005. Ver: “Para não dizer que não falei das flores...”, disponível em http://www.espacoacademico.com.br/048/48pol.htm.
** Escrevi uma reflexão sobre este tema na Revista Espaço Acadêmico, nº 48, maio de 2005. Ver: “Para não dizer que não falei das flores...”, disponível em http://www.espacoacademico.com.br/048/48pol.htm.



5 comentários:
Ola professor!!
Gostaria de parabenizá-lo pela palestra apresentada na "Semana do Serviço Social" da Fafipa, contribui bastante para o nosso aprendizado...
Abraços e até a proxima.
Franciele Nicolette da Silva
2° ano Serviço Social
Ola professor!
Gostaria de parabenizá-lo pela palestra apresentada na Semana do Serviço Social da Fafipa, que contribui bastante para o nosso aprendizado.
abraços e até a proxima!
Franciele Nicolette da Silva
2°ano Serviço Social
Caro amigo Ozai. Fiquei com inveja d'ôcê, primeiro porque foi palestrar numa faculdade que nunca fui convidado. Segundo, porque foi feliz na sua observação e alerta sobre a perigosa banalização atul que alguns fazem da democracia. Quem sofreu sob a ditadura militar, foi perseguido, e depois lutou pela democracia, sabe que hoje ela é pouco reconhecida e valorizada por algumas pessoas. Oxalá estas sejam apenas "ignorantes" sobre o valor da democracia, porque se forem "cínicas" ou "pré-totalitárias" teremos um retorno da ditadura, visivel ou camuflado. Também é preciso reconhecer que naquele período eu pensava que todos éramos contra a ditadura. Ledo engano, ao nosso lado, nos comícios ou nas passeatas muitos viam a democracia como uma passagem para uma nova ditadura, à esquerda (ditadura do proletariado) ou à direita (neofascismo). Esse mal uso da democracia ainda existe hoje. Infelizmente. Abç. Raymundo Lima
Desde mis BLOGS:
--- HORAS ROTAS ---
y
--- AULA DE PAZ ----
quiero presentarme
en esta nueva apertura
del eminente otoño.
TE SIGO --- BLOG DO OZAI---
Tiempo que aprovecho
ahora para desear
un feliz reingreso en
la actividad diaria.
Así como INVITAROS
a mis BLOGS:
--- HORAS ROTAS ---
y
--- AULA DE PAZ ----
con el deseo de que
estos sean del agrado
personal.
Momentos para compartir
con un fuerte abrazo de
emociones, imaginación y
paz. Abiertos a la comunicación
siempre.
afectuosamente :
ANTONIO OZAI DA SILVA
jose
ramon…
Ozaí,
Após a tal "abertura" chamada de "democrática" quando a liberdade de expressão foi se consolidando, a triste constatação: os jovens estariam sentindo dificuldades em compreender o significado e a importância da democracia como você diz e eu concordo.
Antes, o "sistema" era o culpado. E agora, a quem atribuir culpas ou responsabilidades?
Será que quem discursou democracia não estava interessado apenas no poder? Ou melhor, em ocupar alguns espaços que o poder - de tempos em tempos - se obriga a ceder? Com as devidas garantias de cooptação, é claro. Ditadores nunca gostaram de oposição. E eles estão em todas as instiuições e poderes. Houve um tempo em que professores corriam riscos e conspiravam. Hoje não os percebo mais. Será que ainda os temos? Imagino que o verdadeiro poder não parou de aliciar e manter os seus lacaios tanto no senado como nas câmaras e assembléias legislativas. E nem mais precisa dividir para governar.
Percebo também que vivemos uma das piores ditaduras, a dos bacharéis. Tanto pelo que fazem como pelo que deixam de fazer.
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