“Tudo que sei é que não sou marxista”(Karl Marx)
Aprendi, na prática e na teoria, a diferenciar Marx dos marximos.* Da mesma forma que não podemos responsabilizar Jesus Cristo pelo que os cristãos fizeram e fazem em seu nome, também seria absurdo identificar de forma absoluta a teoria de Karl Marx com as práticas, e mesmo as interpretações teóricas, dos seus seguidores. Quem é a expressão verdadeira da obra marxiana? Não é por acaso que todos disputam o legado histórico, a tradição que a obra original representa. Trata-se de se apropriar do capital simbólico.
Escrever o História das Tendências no Brasil levou-me à leitura dos textos marxistas (Declarações, documentos internos e públicos, teses, panfletos, etc.). Antes, por curiosidade militante, já havia tido lido parte da obra de Marx e Engels, Lenin, Trotsky e Rosa Luxemburgo, entre outros. Por outro lado, conheci muitos camaradas da “velha geração”, alguns deles sobreviventes da repressão que sofreu a esquerda brasileira no pós-1964.
Entrevistei representantes dos diversos marxismos. Isto, numa época em que as marcas indeléveis, físicas e psíquicas, da longa noite ditatorial eram relativamente recentes. Isto contribuía para manter o clima de insegurança política e uma relativa desconfiança em relação ao entrevistador. Não foi fácil. Afinal, o pesquisador era um “ilustre” desconhecido, um autodidata de origem operária pertencente à geração que via com certa ojeriza a tradição marxista.
Tendíamos a supervalorizar os erros e a não reconhecer os aspectos positivos da geração que nos antecedeu. Eles, os marxistas, especialmente os oriundos do velho partidão e da vertente stalinista, eram os derrotados, aqueles que cometeram equívocos políticos graves como a política de colaboração de classes e compactuaram com os pelegos encastelados na velha estrutura sindical getulista. Além disso, eram os fiadores do “socialismo realmente existente”, burocrático e autoritário.
Era preciso superar este passado e iniciar uma nova era. Arrogantemente, imaginávamos que estávamos diante de um novo início com as greves operárias do ABCD, a formação do PT e da CUT. Ignorávamos a história e se nos voltávamos para o passado era para criticá-lo e descartá-lo, como se isso fosse suficiente para nos libertarmos dos fantasmas.
Escrever o História das Tendências no Brasil me libertou desta ignorância e possibilitou um melhor conhecimento dos marxismos como parte inseparável da história deste país. Mantive vínculos de respeito, e até mesmo de amizade, que perduram. Anos depois, quando fiz o mestrado sobre Os partidos, tendências e organizações marxistas no Brasil (1987-1994): permanências e descontinuidades **, aprofundei estes laços e tive contato com outros militantes dos marxismos. Sou grato por possibilitarem a conclusão destes trabalhos e proporcionarem o aprofundamento do meu aprendizado.
O impulso para pesquisar e estudar os marxismos, como autodidata ou mestrando, resultou da mera curiosidade pelo saber. O anticomunismo, por exemplo o conselho para manter distância do companheiro que se assumia comunista, atiçou ainda mais o desejo de conhecer.*** Esta experiência de leituras e convivências foi uma das minhas melhores universidades. Ensinou-me muito!
Contudo, não aderi aos partidos ou organizações marxistas. O mais próximo que cheguei disso foi a participação no Espaço Marx, por ocasião da comemoração dos 150 anos do Manifesto Comunista. Foi uma experiência fértil, mas também frustrante. Essa trajetória prática e teórica aproximou-me cada vez da obra de Marx/Engels. Porém, quanto mais me aproximei deles, mais me afastei dos “marxismos”.
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* A palavra “marxismos” é utilizada propositadamente no plural para destacar a diversidade do que constitui o “campo marxista”. Ver “Marxismo(o) no plural”, REA 86, julho de 2008, disponível em http://www.espacoacademico.com.br/086/86ozai.htm
** Fiz o mestrado no Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da PUC/SP, sob a orientação do Maurício Tragtenberg. Este trabalho está disponível em: http://www.4shared.com/file/76215451/72e0aad0/MESTRADO.html
*** Essa curiosidade foi de uma geração – e não me refiro à idade, mas ao significado histórico. Isto, entre outros aspectos, explica a aceitação do História das Tendências no Brasil, cuja tiragem, num total de 15 mil exemplares, esgotou-se (foram 5 mil em formato Jornal-Livro e 10 mil livros).



4 comentários:
Apropriar-se do capital simbólico que grande sacada... o óbvio! Aquilo que só se chega a custo de muito trabalho, aquilo que exige todo um conteúdo representativo de vida. Ufa! Que tarefa de vida! Abraços
Somos quase contemporâneos e eu fui, ao contrário e por sorte sua, militante de organizações clandestinas auto-proclamadas marxistas: primeiro o partidão, depois o que veio a ser PSTU (na época CS) e depois OT.
O que posso dizer é que de fato não conheci nenhum marxista em convívio militante: só eu tinha de fato lido o que era para ser lido e acreditava como uma imbecil num futuro libertário, ainda que com as "etapas" prescritas. O resto era gente oportunista, golpista, cruel e... sinceramente, digna de internação. Eu e várias outras "companheiras" fomos psicologica e fisicamente violentadas. não por coincidência várias foram institucionalizadas por desordem mental após extremo stress de crueldade, especialmente aquelas de nós "promovidas" a direção nacional.
Nunca mais vi nem conversei com ninguém depois dos meus 19 anos. Felizmente...
Gostei da sua abordagem. Honesta e sóbria, de certa forma libertadora.
abraços
Meu caro Ozai,
Em meio a tantos afazeres, comento tardiamente este seu post, para lhe indicar uma correcao fundamental.
Voce equipara Cristo e Marx para desculpabiliza-los, previamente, de qualquer bobagem, besteiras ou mesmo crimes, que seguidores, discípulos ou quaisquer outros individuos posteriores tenham cometido em nome da doutrina original.
Creio que voce incorre aqui num ERRO GRAVE, que é comum nesse tipo de alusao desculpabilizante.
Você esquece, simplesmente, que Cristo, ao que sabe um personagem historico sobre o qual não temos fontes originais, não parece ter feito obra teorica ou empírica registrada diretamente, ou seja, ele não foi autor de nenhum manuscrito, a não se de parabolas, ensinamentos, predicacoes e outras formas de transmissao oral de principios, valores, concepções, das quais tomamos conhecimento pelo registro indireto e posterior de quatro evangelistas e alguns comentaristas esparsos, nenhum dos quais parece ter convivido com o personagem historico.
Ou seja, nao se pode imputar diretamente a Cristo qualquer responsabilidade pelo uso que os posteros fizeram dessas predicacoes, pois ele nao guarda conexao direta, pelo menos registrada, com as fontes da doutrina.
DIFERENTE, muito diferente, é o caso de Marx, um intelectual militante, um homem de partido, um responsavel de organizacao, um jornalista ativo e um agitador diretamente conectado às lutas de seu tempo.
Ele PODE SIM ser responsabilizado pelo que ocorreu depois, pois os que fizeram o que se sabe em paises tao diferentes como a Russia ou a China, o fizeram em nome de sua doutrina, referindo-se especificamente a textos de Marx.
Esta responsabilidade intelectual pelo que escrevemos e pregamos é insubstituivel e irrenunciavel.
Por isso acho que voce deveria revisar o seu texto ou escrever um novo, sobre a responsabildiade dos intelectuais.
Somos todos responsaveis pelo que escrevemos e pregamos...
Paulo Roberto de Almeida
Olá foi a 2ª vez que vi o teu blog e reflecti tanto!Bom Trabalho!
Cumps
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