ConfiraTudo que respira
Conspira
(Paulo Leminski)
Recentemente, participei de uma atividade organizada pela Conspiração Socialista, uma das diversas correntes de oposição à maioria que controla a APEOESP (Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo). A Conspiração Socialista, mais o PSTU, o PSOL e outros grupos menores, compõem a Oposição Alternativa, a qual se vincula à Conlutas (Coordenação Nacional de Lutas).
Fui convidado para o lançamento da Revista Educação de Classe, publicada pela Conspiração Socialista. O auditório da APEOESP, no centro da capital paulistana, estava repleto de companheiros que prestigiaram o evento. Este começou com a fala do Luís, apresentando a revista. Ele declarou que a revista, e portanto a Conspiração Socialista, estavam no campo do marxismo. Compreendo a necessidade da auto-proclamação.
Logo após, foi-me concedida a palavra para falar sobre “A educação e a crise”.* Nem bem externei os meus agradecimentos, um companheiro interrompeu: “A revista já se declarou marxista e você?” Algo como: “Então, qual é a sua?” Fiquei surpreso, mas, por educação e respeito, tentei responder. A minha resposta, como era de se esperar, não satisfez o meu interlocutor.** O camarada continuou a resmungar e importunar mesmo quando eu já havia recomeçado a minha fala. A certa altura, ele se retirou ao mesmo tempo em que me dirigia alguns resmungos e o epíteto de “chato”. Criou-se certo constrangimento, mas o evento continuou e terminou da melhor forma possível.
Para mim, foi uma experiência valiosa. Reencontrei velhos amigos e companheiros e, de certa forma, aquele ambiente e mesmo o perfil do púbico me transportava de volta às minhas origens. Recordei dos tempos em que militava no Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema, do período em que fui professor na mesma escola que o Tonhão, um militante histórico da oposição à diretoria da APEOESP. Assim, apesar da atitude do companheiro, eu me sentia bem. Mesmo sem ter declarado “sou marxista”, o que poderia apaziguá-lo, partilhava dos mesmos ideais e utopia das pessoas presentes naquele espaço e, inclusive, ele. Como disse um dos companheiros: “Há um “ismo” que nos une. Somos contra o capitalismo”. Concordei e acrescentei mais um ismo: “utopismo”.
No entanto, há muitos “ismos” que nos dividem, e não é aconselhável fechar os olhos para esta realidade. Chamou-me a atenção, por exemplo, a quantidade de grupos cujos representantes tomaram a palavra para saudar a iniciativa da Conspiração Socialista. Além dos conhecidos, como o PSTU e o PSOL, ouvi nomes como: FOS, Sindicato é prá lutar, Oposição revolucionária, Trabalhadores na luta socialista, Espaço Socialista, etc. E isto apenas entre os que participaram do evento, ou seja, sem contar os diversos agrupamentos de oposição que se assumem marxistas. Ante tantas divisões e subdivisões, como é possível a unidade contra o “ismo” comum?
Diante disto, será tão necessário aderir ao marxismo? Como hipótese, aceitemos que seja preciso declarar-se um autêntico marxista. Mas, então, qual dos marxismos devemos assumir? E se todos são marxistas, se partilham do mesmo objetivo, da mesma utopia, por que não se unificam numa única organização? Bem, talvez esta seja uma utopia maior do que a derrota do “ismo” que unifica a todos. De qualquer forma, fico a pensar: de onde vem essa necessidade de assumir um “ismo” e cobrá-lo ao outro?
Da minha parte, está decidido: quando perguntarem novamente se sou marxista ou coisa do tipo, direi simplesmente: “Sou palmeirense!” E indicarei os textos do meu blog ao interlocutor...
Da minha parte, está decidido: quando perguntarem novamente se sou marxista ou coisa do tipo, direi simplesmente: “Sou palmeirense!” E indicarei os textos do meu blog ao interlocutor...
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* Ver Revista Espaço Acadêmico, nº 97, junho de 2009. Disponível em http://periodicos.uem.br/ojs/index.php/EspacoAcademico/article/view/7258/4147
** Coincidentemente, os últimos textos publicados no blog visam responder ao aluno que, em condições diferentes e com outra formulação, queria saber, em suma, “qual era a minha”.
* Ver Revista Espaço Acadêmico, nº 97, junho de 2009. Disponível em http://periodicos.uem.br/ojs/index.php/EspacoAcademico/article/view/7258/4147
** Coincidentemente, os últimos textos publicados no blog visam responder ao aluno que, em condições diferentes e com outra formulação, queria saber, em suma, “qual era a minha”.



11 comentários:
Acho que ainda assim, o palmeirense é um escapismo, pois o debate era para saber se voce tinha uma posicao de classe ou nao. Voce escapou pela tangente, por assim dizer.
O sectarismo e a intolerância são duas posições idiotas.
Mas, o escapismo não resolve o problema.
Quem tem argumentos enfrenta os intolerantes e os sectarios, no limite das possibilidades de dialogo.
Quando essa possibilidade nao existe, é preciso combater essas duas posições idiotas de fora, mas combater, nao escapar.
Ozai, sobre o mesmo assunto, tinha achado pertinente a reflexao de Daniel Kohn Bendit apos a vitoria dos Verdes nas eleiçoes europeias. ele chamava a atençao para a necessidade de, passada a euforia dos primeiros tempos, ter-se a coragem de se olhar nos olhos e refletir juntos sobre tudo o que separa, tudo que une os companheiros de luta. Ora, se o partido verde obteve um tao bom resultado, foi justamente graças à uniao que ele conseguiu estabelecer em torno da candidatura dele proprio e de Eva Joly, numa formaçao politica tradicionalmente famosa por suas briguinhas e divisoes milimetricas em torno do que parece ser, mais do que ideias, ambiçoes e obsessoes individuais. O que é evidente é que a surpreendente vitoria desse partido sobre o PS parece ser, pelo menos em parte, resultado dos embates entre os chamados "elefantes" do PS, que pesam de toda a empafia de alguns (ou de todos), arrastando para tras e para baixo a imagem de um partido incapaz de unidade.
acho que a sua reflexao esta certa e a sua posiçao bem mais produtiva do que desses encrenqueiros miudos, que se acham os arbitros do pensamento universal e nao enxergam a trave no proprio olho, que os impede de ver o outro e o mundo.
abraço e bom domingo,
Regina
Estimado amigo Ozai:
Debe usted alcanzarme mayores detalles sobre su expresión final de lo "palmereinse", no encuentro el hilo para finalmente entender vuestra palabra final.
La primera parte de vuestro texto es una película objetiva de las interacciones e intersubjetividades que vive el mundo universitario anclado a las demandas de la sociedad civil. Si está a su alcance ruego me alcance una mayor dotación informativa sobre estas experiencias valiosas para comprender la dinámica social que le toca vivir a usted y vuestra generación. Cordialmente
Cesar Espinoza Claudio
UNMSM, Lima, Perú.
hahaha "sou palmeirense" foi otima.
Não sei professor, mas sinto a mesma "necessidade" de perguntar "qual é a sua", por parte do Movimento Estudantil. E é engraçado pq indiretamente estou ligado ao contexto das greves das universidades estaduais, e vc aí falando da APEOESP!Achei muito legal. Tenho acompanhado, mas muitas vezes faltam comentários, gosto bastante do que escreve!
Abraços!
Ozai:
o que voce relata do seu encontro com o companheiro resmungao parece a situacao classica que ocorre em todas as conferencias e congressos. Isto se chama a sindrome do "O meu ----- e' maior que o seu." Em geral isto acontece muito quando a pessoa que esta' sendo interrompida e' uma mulher, mas tambem ocorre quando um chato ou chata da audiencia quer medir algo (partes da genitalia, cerebro, lingua, etc) com o palestrante.
Temos que encarar estes chatos importunos pelo que sao: gente invejosa, que nao sabe respeitar os colegas, que nao entende o protocolo da uma reuniao entre colegas, que nao tem modos nem educacao. Como criancas malcriadas que sao, o melhor a fazer com elas e' ignora'-las.
Camaarada Ozaí
Esta frase "Então, qual é a sua?" é uma das frases que mais nos separa para consguirmos derrotar o ismo inscrito no capitalismo, e todos esses grupos que questionam qual ismo nos une só nos separam, ou melhor eles tem o prazer de separar consciente ou inconscientemente. Fico contigo Grande abraço Ana Maria Souza
Oi,
Acho que algumas pessoas se entregam tanto à luta, que a própria paixão transforma-se em sectarismo. Tudo em excesso é ruim, mesmo o amor e a paixão, seja por pessoas, seja por causas.
Se quisermos construir uma alternativa viável ao capitalismo, não podemos cometer os mesmos erros de nossos antepassados - a luta entre anarquistas e socialistas foi uma das piores coisas que poderiam ter acontecido aos movimentos populares nos séculos XIX e XX.
Um abraço
Antonio e amigos,
Venho informar que meu irmão PAULO MEKSENAS faleceu nesta 2ª. feira, 22 de junho, às 20,45 h
no Hospital de Florianópolis, onde fora internado no sábado à noite, 13 de junho, devido a fortes dores nas costas.
A causa foi parada cardíaca devido à falência de órgãos motivada por câncer cujo foco era um tumor no pâncreas. Ele nunca soube que tinha tal doença. Nosso Pai também faleceu em razão do câncer, embora num quadro diferente, em 18 de março do ano passado – época em que o Paulo já devia estar desenvolvendo a doença.
Paulo estava radicado em Florianópolis há cerca de 14 anos, era titular da cadeira de Sociologia da Educação da Faculdade de Educação da UFSC, vinha lecionando na graduação e no doutorado, além de ter alguns orientandos sob sua responsabilidade.
Deixa Mariza (45) e Rafael (21) – estudante de Música na UESC. Nossa Mãe (80), também morando em Florianópolis, vai resistindo.
Paulo tinha 49 anos, muitas obras boas ainda por ler e muita coisa interessante para escrever.
Um artigo seu sobre Antonio Vieira e a Modernidade (introdução de um projeto maior) foi selecionado e integra coletânea recém lançada por respeitada editora universitária portuguesa, e daí surgiu convite para que passasse um ano em Lisboa, estudando e desenvolvendo seu projeto sobre Vieira. Ele soube disso já no leito do hospital, através de um colega que o visitava.
,
Ia rascunhando idéias, artigos, ensaios e projetos de pesquisa e pendurando-os no varal do futuro, para quando tivesse tempo para desenvolvê-los – férias, aposentadoria... mas não teve chance de recolhê-los. Agora ficarão no varal até o futuro passar, inúteis de si e ao sabor do esquecimento.
Um abraço a todos.
Finalizando, para colocar a notícia no espírito deste “post”:
O Paulo (assim como eu) declarava-se marxista, não via nenhum problema em ser e declarar-se marxista, e tinha orgulho de ser conscientemente marxista.
Parece que ia contra a corrente daqueles que têm vergonha de se assumirem marxistas ou daqueles que não têm gabarito intelectual para sê-lo e por isso atacam marxismo e marxistas.
Deixo duas perguntas: a quem interessa minimizar ou desmoralizar o marxismo? Por quê a vergonha de assumir-se marxista?
Outro abraço.
Comapanheiro Ozaí, como está?? Parece-me que vou ser frequentador assíduo dese blog, a internet encurta distância (ih!! parece propagande de empresa aérea). Recebi o convite para ir ao lançamento desta revista, mas não fui porque neste momento estaria em sala de aula.
Mas, não leve esse comentário nem esse resmungo muito a sério, faz parte de uma parte desse povo que parou no tempo. Fui Diretor da APEOESP e meu mandato terminou em 99. O tempo passou, o mundo mudou, o Brasil tem hoje o seu melhor presidente, o LULA< mas, nesse povo a única mudança foi a cor dos cabelos, agora estão mais brancos que antes. Sofri muitos ataques por parte de uma minoria que não tem base, que não conseguem nem serem eleitos representantes em suas escolas. Na greve por exemplo do ano passado, e em outras, vão, sobem no caminhão esbravejam, gritam, chingam, agridem, mas, não param nem as escolas deles.
Claro que isso não é para todos, você fala do Tonhão, que o Covas (PSDB), safadamente, exonerou, tem também a Dagmar (nossa companheira desde o início do PT lá na Vila Alpina)e um monte de outras pessoas sérias, mas, tem muito oportunistas, que só quer usufluir dos "benefícios" do sindicato. De estar hospedado em um congresso em um hotel 3 ou 4 estrelas, brigando porque em seu quarto não tem banheira, ou por falta de frigobar, ou porque a distância é de mais de 300Km, e vai de ônibus.
É companheiro, aquele tempo em que a gente fazia o trabalho porque acreditava, ficou pra trás para uma grande maioria. A gente acordava de madrugada, ou nem dormia. Fazia cola e saía madrugada a fora colocando material nos postes.Passavamos a noite criando estratégias para a Greve Geral (que derruba general) Uma grande parte desse pessoal, não sabe oque é isso, pegaram tudo pronto, não sabem dar valor.
abraços
A direita busca meios de fazer o mais baixo crescer e se aproximar dos altos.
A esquerda prefere cortar as pernas dos altos e fica feliz com todos do mesmo tamanho.
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