sábado, 9 de maio de 2009

Reflexões dostoievskianas

Tenho o costume de fazer anotações sobre os livros lidos. Um comentário reflexivo, um trecho que chama a atenção, uma referência que permite estabelecer links com outras leituras e fatos da vida, etc. Antes, anotava em papel. Agora, na era do computador, os registros das leituras e da vida são informatizados e estão ao alcance em um clique. Foi assim que, sem querer, encontrei em meus arquivos as notas sobre o livro Memórias do subsolo e outros escritos, de Dostoievski, que li no início de 2006. *

A obra é composta por três textos: Notas de inverno sobre impressões de verão, Memórias do subsolo e O crocodilo. Boris Schnaiderman, tradutor e autor da apresentação do livro, ressalta o tom de negação da vida ocidental presente em Notas de inverno. Assim, no Capítulo V (“Baal”), “ao ligar o espírito capitalista de ganância com a religião, na Inglaterra, ele prenuncia claramente a teorização de Max Weber sobre este assunto.” (p.10).

Dostoievski ironiza o espírito burguês e a eloqüência do francês (que esconde seus pobres) e compara-o com o inglês. ** Faz uma excelente descrição da capital inglesa na época da Revolução Industrial. “E que visão dantesca ele nos transmite da cidade capitalista! Violenta e muito mais demolidora que a de Dickens, diante dos mesmos panoramas urbanos. Aquele fragrante da menininha prostituída, agarrada à moeda que recebera, tem algo de clamor desesperado. E isso pode parecer surpreendente num escritor que não acredita no socialismo e tem uma fé cega em seu povo, em seu país, cujas instituições ele nem pensa em contestar”, escreve Schnaiderman (p.11).

O Crocodilo é excelente! Nele, o autor polemiza com a intelectualidade russa sobre o desenvolvimento nacional e a influência ocidental. Sobressai a ironia ao “princípio econômico”, ou seja, a prevalência do Capital sobre todos os demais valores. O crocodilo engoliu o funcionário e este se torna, diante do “princípio econômico”, culpado. Ele aceita e procura uma maneira de lucrar com a situação em que se encontra, isto é, no interior do animal. É uma visão crítica, mas divertida!

O texto que mais me marcou foi Memórias do Subsolo. É nele que Dostoievski escreve as palavras que inspiram este blog: “Existem nas recordações de todo homem coisas que ele só revela aos amigos. Há outras que não revela mesmo aos amigos, mas apenas a si próprio, e assim mesmo em segredo. Mas também há, finalmente, coisas que o homem tem medo de desvendar até a si próprio: e, em cada homem honesto, acumula-se um número bastante considerável de coisas no gênero. E acontece até o seguinte: quando mais honesto é o homem, mais coisas assim ele possui.” (p.99).

É um texto impactante, embora seja maçante em seu início e exija perseverança do leitor. Li quanto minha filha fez uma cirurgia, em sua companhia no hospital. Não foi uma leitura agradável e talvez esse fato tenha influenciado. Não estava em plenas condições para concentrar-me. Logo nas palavras iniciais Dostoieviski afirma: “Sou um homem doente... Um homem mau. Um homem desagradável. Ceio que sofro do fígado”. (p. 65). O leitor deve imaginar o que vem depois!

Não obstante, esse texto me fez pensar sobre o ser intelectual e, especialmente, sobre as Ciências Sociais. “Juro-vos senhores que uma consciência muito perspicaz é uma doença, uma doença autêntica, completa. Para uso do cotidiano seria mais do que suficiente a consciência humana comum...”, afirma Dostoievski (p. 68). A consciência perspicaz trás à tona o sofrimento. Não há escapatória para o intelectual e cientista social comprometido com o ser no mundo e tudo o que isto envolve. Só há uma forma de evitar o sofrer: manter-se na ignorância.

__________
* DOSTOIEVSKI, F. Memórias do subsolo e outros escritos. São Paulo, Editora Paulicéia 1992. [Tradução do russo por Boris Schnaiderman]
** Ver o capítulo VI, “Ensaio sobre o burguês” (p. 233-245). Nesta parte, Dostoievski brinda o leitor com uma definição sobre a liberdade criativa e crítica: “O que é liberté? A liberdade. Que liberdade? A liberdade, igual para todos, de fazer o que bem se entender, dentro dos limites da lei. Mas quando é que se pode fazer o que bem se entender? Quando se possui um milhão. A liberdade concede acaso um milhão a cada um? Não. O homem desprovido de milhão não é aquele que faz o que bem entende, mas aquele com quem fazem o que bem entendem. O que se conclui daí? Conclui-se que, além da liberdade, existe a igualdade e justamente a igualdade perante a lei. Quanto a esta igualdade perante a lei, pode-se dizer apenas que, na forma em que ela se pratica atualmente, cada francês pode e deve considerá-la uma ofensa pessoal.” (p. 240)

6 comentários:

Tati disse...

Leituras e releituras.
Acontece que estou relendo Dostoievsky , neste momento “ O Duplo”.
E mesmo lendo ou relendo a sua obra, temos a impressão de que o resto esvaece.
È incrivelmente profundo na observação, na dor e na expressão do inefável.
Fiquei animada ao ler seu resumo e vou tentar mergulhar proximamente nas Memórias...
Tati

Alcides disse...

Comom diria o chavâo: "Pensar dói". Continuando, outra referência- que infelizmente não me lembro o nome- disse: "Entre o nada e o sofrimento ( ou a dor) fico com o sofrimento".
Não li ainda o "Dostoievsky original/', o russo; brinco porque acabei de ler "Crônica da Casa Assassinada", de Lúcio Cardoso, comparado pela crítica da revista Veja- que ano ou edição?- a ao autor russo.
Não tem grandes reflexões políticas, por causa do microambiente/cenário do enredo, mas me fez ousar me programar o fôlego para o grande gênio russo".

Lia Noronha disse...

Muito boa a sua visão e reflexão diante de temas tão complexos abosdados nas obras.
Abraços

João Vicente Nascimento Lins disse...

Fiquei com vontade de ler os livros, agora vou ter que encontrar um espaço na apertada agenda de graduando para o livro. Aliás o texto ficou ótimo. Abraços professor

Leo Lagden disse...

Ler, reler...
Esses atos fazem parte de minha vida.
Anotações que faço também, sempre ao alcance para poder relembrar e refletir sobre o que eu leio.

Leo Lagden disse...

Ler e reler são hábitos que carrego comigo, assim como fazer anotações sobre os livros que passaram em minha vida.
Legal saber que outras pessoas cultivam o mesmo hábito.