sábado, 20 de dezembro de 2008

A vocês, caros leitores!

Passei a semana a pensar sobre o que escrever em meu último texto do ano. Pensei na rebelião dos jovens que sacode a Grécia e, parece-me, é pouco conhecida por aqui. [1] Pensei, ainda, em escrever sobre a publicação do meu livro Maurício Tragtenberg: Militância e Pedagogia Libertária (Ijuí: Unijuí, 2008, 344p.). A obra chegou à minha residência na última segunda-feira e meu primeiro impulso foi compartilhar a imensa alegria que sentia. Afinal, a publicação de um livro é um momento gratificante na vida. Dizem até que um homem, para se realizar, deve ser pai, plantar uma árvore e publicar um livro. Este é mesmo como um “filho”, com a diferença de que, para nascer, depende contribuição de várias pessoas.

Não fosse o apoio dos muitos com quem convivi neste período, desde a fase em que esta obra era apenas uma idéia para um projeto de pesquisa, não teria se tornado realidade. A lista de agradecimentos é grande e não cabe aqui. [2] Embora tenha um autor, o livro é uma construção coletiva. Resulta de uma longa caminhada, às vezes tortuosas e cheia de percalços e tensões, mas também com episódios marcantes e descobertas, além das amizades e vínculos pessoais consolidados.

Publicar, do latin publicare, significa tornar público, manifesto, divulgar, fazer-se conhecer, declarar-se. Assim, define o bom Aurélio. É, portanto, uma imensa alegria tornar público, dar a conhecer e submeter à apreciação pública um trabalho originalmente elaborado para ser lido por uma banca de avaliadores e, posteriormente, por um ou outro leitor mais interessado. O livro tem a vantagem de ser um texto reescrito, reelaborado, a partir da tese mas com a preocupação de torná-lo inteligível e de leitura mais agradável a um público mais amplo do que a banca que apreciou o texto original. [3]

Estou, portanto, muito contente e compartilho esse momento ímpar na minha vida contigo. Quero, sobretudo, agradecer a vocês, caros leitores, por acompanhar este blog e seus textos despretensiosos. Sim, sei que na maioria das vezes trata-se apenas de uma relação virtual e mesmo impessoal. Mas também sei que as palavras constroem vínculos, geram possibilidades para novas relações, amizades virtuais e reais. Estas podem se fortalecer e se consolidar. (Recentemente, por exemplo, em viagem ao Maranhão, conheci pessoas especiais que me conheciam apenas pela Internet).

Quando escrevo, caro leitor, tenho você em conta e alta estima. Sei que as possibilidades da rede são imensas, que sua caixa postal é diariamente invadida com dezenas de mensagens oferecendo várias leituras. É um privilégio, portanto, tê-lo como leitor, como leitora. [4] E me importa sim quem você é. Porque do outro lado, à frente do monitor, não há um robô, uma máquina, mas sim um ser humano. [5] Ao tomar o seu precioso tempo e me brindar com um comentário ou um email, suas palavras não são abstrações virtuais, mas testemunhas da sua existência. Se mereço sua atenção, importa-me sim saber de ti.

Ao agradecer por me privilegiar como seu interlocutor, o faço à pessoa de carne e osso, com sentimentos e emoções, ainda que o email pareça mera formalidade. E ainda que eu não responda ao seu comentário, à sua mensagem, devido às tribulações e excesso de trabalho, ou mesmo por não ter o seu email, tenha certeza de que li e que isto fez diferença.

Quero, assim, finalizar com um agradecimento sincero a vocês, caros leitores, anônimo ou não, amigo virtual ou real, colegas e ex-alunos, familiares, etc. Sem você não haveria porque manter este espaço, nem porque dedicar boa parte da minha vida a escrever. Tenho sorte em tê-los como interlocutores reais ou potenciais. Meu sincero muito obrigado e votos de Boas Festas e um Feliz Ano Novo!

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[1] Na net, porém, há vários sites, blogs, grupos de discussão, etc., pelos quais é possível se informar e acompanhar o desenrolar diário da rebeldia grega, já comparável ao maio de 1968. Por exemplo, participo do grupo Fórum Libertário, mas uma simples busca pelo Google indicará várias possibilidades de informações. Algumas imagens impressionantes deste movimento podem ser encontradas em meu Orkut: http://www.orkut.com.br/Profile.aspx?uid=18093752657073259152
[2] Gostaria, porém, de fazer um registro especial à minha família, a minha mãe e os amigos Beatriz Tragtenberg, Nelson Piletti, Paulo Denisar Fraga e Walter Praxedes, aos quais dedico o livro.
[3] A tese “Maurício Tragtenberg e a Pedagogia Libertária” foi defendida no dia 13 de abril de 2004, na Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (FE/USP), sob a orientação do Prof. Dr. Nelson Piletti (USP) e com a participação dos professores Celso Rui de Beisiegel (FE/USP), Henrique Rattner (FEA/USP), Paulo Edgar Almeida Resende (PUC/SP) e Walter Praxedes (UEM). O texto na íntegra está disponível em http://www.4shared.com/file/76216035/366bce7d/DOUTORADO.html
[4] Ver “Vossa Excelência, o(a) leitor(a)”, de 22 de março de 2008, disponível em http://antonio-ozai.blogspot.com/2008/03/vossa-excelncia-oa-leitora.html
[5] Ver “Homens e máquinas”, de 25 de agosto de 2007, disponível em http://antonio-ozai.blogspot.com/2007/08/homens-e-mquinas.html

sábado, 13 de dezembro de 2008

Ensinamento sobre a humildade e a arte de ler

Hugo de São Vítor, um mestre do século XII, época em que surgiram as primeiras escolas ancestrais das universidades modernas, ensina:

“O começo da disciplina moral é a humildade, da qual existem muitos ensinamentos, três dos quais interessam mais ao estudante: 1) primeiro, não reputar de pouco valor nenhuma ciência e nenhum escrito; 2) segundo, não ter vergonha de aprender de qualquer um, 3) terceiro, não desprezar os outros depois de ter alcançado o saber.

Muitos ficam decepcionados porque querem aparecer sábios antes do tempo. Por esta razão, explodem numa intumescência de arrogância, começam a fingir aquilo que não são e a envergonhar-se daquilo que são, e tanto mais se afastam da Sabedoria quanto mais se preocupam não em serem sábios, mas em serem considerados tais.

Conheci pessoas assim, as quais, mesmo necessitando ainda dos conhecimentos básicos, se dignam interessar-se somente das coisas sublimes, e acham que se tornaram grande sábios por ter lido os escritos ou ouvido as palavras dos grandes e dos sábios.

(...)

O estudante prudente, portanto, ouve todos com prazer, lê tudo, não despreza escrito algum, pessoa alguma, doutrina alguma. Pede indiferentemente de todos aquilo que vê estar-lhe faltando, nem leva em conta quanto sabe, mas quanto ignora.

(...)

Por que você aspira a coisas altíssimas, quando ainda jaz no lugar mais baixo? Avalie, antes, aquilo que as tuas forças podem sustentar. Avança bem, mas avança ordenadamente. Alguns, querendo dar um grande salto, caem no precipício. (...) Aprenda de todos com prazer aquilo que você não conhece, porque a humildade pode tornar comum para você aquilo que a natureza fez próprio para cada um. Será mais sábio de todos, se irá querer aprender de todos. Aqueles que recebem de todos, são mais ricos de todos.

Não considere vil conhecimento algum, portanto, porque todo conhecimento é bom. Se tiver tempo livre, não recuse de ao menos ler algum escrito. Se você não lucra, também não perde nada, sobretudo porque não há nenhum escrito, creio eu, que não proponha algo desejável, se é tratado no lugar e no modo devido, e não há nenhum escrito que não contenha algo especial não encontrado alhures, algo que o diligente escrutador da palavra não possa agarrar com tanta maior graça quanto mais é raro.

(...)

Igualmente, lhe convém que, quando começar a conhecer alguma coisa, não despreze os outros. Este vício da vaidade ocorre a alguns, porque olham com demasiada diligência o seu próprio conhecimento e, parecendo-lhes de ter-se tornado alguma coisa, pensam que os outros não são como eles nem poderia nunca sê-lo, sem conhecê-los.”
*

É incrível como as palavras de Hugo de São Vítor, escritas há mais de oito séculos, mais precisamente em 1127, permanecem atuais. Parece até que ele escreveu hoje, basta olhar à nossa volta. Ao que parece, o ser humano não mudou muito.

O bom estudioso mantém a atitude de humildade diante do saber. A empáfia não faz bem à busca do conhecimento. O presunçoso é irritante, risível e, quando se aventura a escrever, tende à linguagem pomposa, a qual revela falsa erudição. Como nota Wright Mills: “O desejo do prestígio é uma das razões pelas quais os acadêmicos escorregam com tanta facilidade para o ininteligível.” **

É desaconselhável ser leitor de um livro só. Os que se fecham para outras leituras agem à maneira religiosa dos que abraçam verdades inquestionáveis. Memorizam slogans e citações, como argumento de autoridade, mas correm o risco de se tornarem meros repetidores do que imaginam saber plenamente. A necessária humildade requer a dúvida permanente. Aprender é muito mais do que acreditar!

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* In: Hugo de São Vítor. Didascálicon, da arte de ler. Petrópolis/RJ: Vozes, 2001, p. 155-159
** MILLS, C. Wright. A imaginação sociológica. RJ: Zahar, 1982, p. 235.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Déjà vu! Um causo especial de “cola”

Hodiernamente, como diz o pessoal do Direito, ampliaram-se as possibilidades da cola. Mudam os tempos, mas mantêm-se as “estratégias de sobrevivência”. Os valores invertem-se: em vez de privilegiar o ensino-aprendizagem, há o risco de o professor investir o seu tempo a navegar pela Internet para descobrir se os alunos usaram o famoso CTRL C / CTRL V. Não quero me transformar em “fiscal do google” e, por extensão, dos discentes. Meu intuito é estimulá-los a utilizar a tecnologia a nosso favor, ou seja, em prol do conhecimento. Às vezes, porém, me deparo com situações estressantes e até mesmo hilariantes.

Recentemente, tive uma idéia que me pareceu ótima! Dividi a história do Brasil em períodos e solicitei aos alunos que escolhessem um deles e fizessem uma pesquisa sobre o ordenamento jurídico. Houve tempo e condições para pesquisar. Simultaneamente, estudávamos a teoria política de Karl Marx. Na data agendada, eles entregaram um trabalho acadêmico sobre o ordenamento jurídico do período histórico pesquisado, fundamentado no pensamento do filósofo alemão. O mais importante, bem claro, deveria ser a análise. O objetivo consistia em estimular a reflexão sobre o Direito nos diversos contextos históricos. Era possível que “colassem” (observei que, em alguns casos, as fontes da “pesquisa” são as mesmas, com repetições de expressões). Mas não seria tão fácil “colar” na argumentação e análise, a não ser que se aposte que o professor não lerá. Pelo menos foi o que imaginei!

Em muitos casos faltou o principal: analisar o ordenamento jurídico, amparando-se na teoria de Karl Marx. Compreendi os limites e reconheci o esforço. Nem recorri ao google para comprovar indícios do CTRL C / CTRL V. Houve um caso, porém, que me deixou intrigado: o(a) acadêmico(a) tentou expor o ordenamento jurídico do período escolhido e, na segunda parte, apresentou o que deveria ser a análise. Como em outros casos, não analisou e resumiu-se a expor o contexto histórico. Não atendeu, portanto, ao solicitado. Se fosse apenas esse fator, seria tolerável.

Iniciei a leitura da segunda parte já sabendo desse limite. À medida que avançava percebia algo familiar no que lia. Déjà vu! Não demorou muito para, como se diz na gíria, “cair a ficha”. A familiaridade com o texto tinha uma explicação tão simples quanto risível: o(a) acadêmico(a) honrou-me com a leitura e, conseqüentemente, a “cola” de parte da minha dissertação de mestrado. As minhas palavras estavam lá, com alguns cortes e certa montagem, mas com trechos inteiros em parágrafos contínuos. Reconheci-me e, para não ser injusto, fiz a averiguação. Eis a fonte: “Contribuição à história do marxismo no Brasil – I - Contextualização”. REA nº 54, novembro de 2005, disponível em http://www.espacoacademico.com.br/054/54pol.htm. Autor? Eu próprio!

Irritei-me, decepcionei-me, mas, por fim, até pareceu-me cômico, mas digno de reflexão. Fiquei a pensar: será que o texto foi lido ou simplesmente copiado e colado? Será que o(a) aluno(a) não percebeu a autoria? Mas está tão claro! Será que apostou que eu não leria e se lesse não lembraria o que escrevi? Será que acreditou que a “maquiagem” seria suficiente para despistar o leitor? Afinal, o que leva um ser humano adulto, inteligente, provavelmente com QI acima da média, estudante de um dos cursos mais concorridos no Brasil, a agir dessa maneira? Vai saber! Como escreveu Shakespeare, “há mais coisas entre o céu e a terra do que sonha a nossa vã filosofia”. O meu dilema foi, então, definir a nota: dez poderia parecer narcisismo! Que fazer?! Que você faria, caro(a) leitor(a)?

sábado, 6 de dezembro de 2008

Seminários de Dezembro


A primeira edição ocorreu nos dias 1, 2 e 3 de dezembro de 2005, com o tema “Identidades, sujeitos e práticas sociais na sociedade contemporânea: contribuições da história, da psicanálise e da política para a educação”. Em 2006, nos dias 7, 8 e 9, houve o Seminário II. Neste, os participantes debateram sobre “O fetiche do corpo perfeito na sociedade de consumo”. Nos dias 30 de novembro a 2 de dezembro de 2007, realizou-se terceira edição. “Mercado, mídia e alienação na sociedade “pós-moderna” foi o tema geral. Agora, nos dias 04, 05 e 06 deste mês, efetuou-se o Seminário IV, cujo tema direcionador “A Dialética entre a subjetividade e a objetividade - sob o olhar da literatura, da educação e da psicanálise”.*

Os Seminários de Dezembro são organizados pelos professores e demais participantes do Centro de Estudos Político-Pedagógicos (CEPP), o HISTEDBR (GT-MA) e o Formação - Centro de Apoio à Educação Básica e realizados em São Luís, capital maranhense. Tive a honra de ser convidado para participar desta última edição e fazer parte dessa história. O tema da minha conferência foi: “O olhar da literatura” (ver o texto “Um olhar sobre a Literatura: reflexões acerca da sua contribuição político-pedagógica”, publicado na REA nº 91).

No mesmo dia, à tarde, o professor William Amorim proferiu a conferência sobre “O olhar da literatura”, cujo enfoque foi a relação entre psicanálise e literatura. Ainda tive o prazer de participar, ouvir e aprender com a instigante fala do Prof. José Claudinei Lombardi (Unicamp e coordenador nacional do Grupo de Estudos e Pesquisas “História, Sociedade e Educação no Brasil” - HISTEDBR). Infelizmente, tive que retornar à metrópole maringaense: as atividades acadêmicas, as revistas e a saudade da família me chamavam de volta. Dessa forma, não foi possível participar das outras conferências e ouvir a Profª. Mara Regina Jacomeli (Unicamp), o Prof. Agostinho Marques (UFMA) e o Prof. Renato Mezan (PUC-SP). Foi uma pena!

Os Seminários de Dezembro já se consolidaram como um marco no calendário anual e representam uma importante contribuição ao debate sobre temas fundamentais para a sociedade. É uma iniciativa de pessoas dedicadas, que ousam agir e remam contra a corrente. Esforços como estes renovam as esperanças e merecem apoio. Foi uma alegria poder conviver com essas pessoas, ouvi-las e aprender com elas. E me refiro não apenas aos organizadores, mas também aos participantes – os quais estabeleceram um diálogo profícuo com questões instigantes que me fizeram pensar. O público era heterogêneo, mas em sua maioria feminino e jovem. E muito participante...

Participar é também algo que propicia o aprendizado. Como é comum em eventos como esses, a fala nnem sempre traduz a riqueza do processo que a produziu. Foi graças a esse convite, por exemplo, que passei a atentar com mais dedicação aos vínculos possíveis entre psicanálise e literatura; a preparação do texto-base me levou à leituras que, em outras condições, talvez não fizesse, e me fez retomar anotações e obras já lidas. Aprendi muito: antes, durante e depois.

O mais importante, porém, foram as sementes que ficaram e que, tenho certeza, germinarão e brotarão em toda a sua plenitude. Isso se traduz em vínculos de amizade. Coisas do coração! Afinal, é assim que “guardamos os bons momentos e as pessoas especiais”. E vocês, Ana e Leonardo, estão entre elas. Obrigado!

Quero registrar meu agradecimento especial à professora Maria de Fátima Félix Rosar pelo convite, à Profª Miriam, a Sandra, Denise, Regina e equipe do Formação – Centro de Apoio à Educação Básica, e, claro, a todos que participaram e tornaram possível o IV Seminário de Dezembro. Parabéns e que venham outros dezembros.


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