sábado, 5 de janeiro de 2008

Feliz Ano Velho... e Novo!

“Matamos o tempo; o tempo nos enterra”, sentenciou Machado de Assis em Memórias Póstumas de Brás Cubas. O tempo passa, o tempo nos mata. Como afirmou o poeta, “O tempo não pára”. Mas o ser humano, em sua sabedoria quase divina, considerou mais apropriado convencionar que, em certos períodos do ciclo da vida, o tempo passado, passou. C’ est fini! Recomeça um novo tempo, o novo ano.

O calendário é uma invenção humana. Não obstante, em especial neste período, agimos como se o tempo fosse naturalmente seccionado em dias, meses, anos... Fez-se noite, fez-se o dia e os instrumentos para contá-los. O tempo, contado e calculado, surge, então, como obra da natureza ou de uma entidade sobrenatural.

Terminamos por aceitar apenas em parte que “o tempo não pára”. Sim, sabemos que o tempo nos consome, mas é precisamente por sabê-lo que precisamos estabelecer uma pausa e considerar que uma era terminou (o ano velho) e recomeçou outra (o ano novo). Precisamos acreditar. Alimentamos a ilusão do eterno recomeço – até que a morte nos alcance.

É esta necessidade que nos impele a romper os diques da razão e a dar vazão aos sentimentos, emoções e tudo o que significa comemorar o ANO NOVO. Ainda que a razão nos grite que o tempo segue inexoravelmente a sua marcha, agimos e sentimos como se realmente iniciássemos um novo período em nossas vidas. Muitas vezes, procedemos até mesmo como se enterrássemos o “eu” pertinente ao “ano velho”, como se este fosse “outro eu” e não aquele que somos na embriaguez da festança. E por vários dias, mesmo após a ressaca, sinceramente acreditamos que estamos numa nova fase da vida. Depois, a rotina enfraquece esta sensação e então o ano se torna longo e cansativo. Torna-se velho antes que termine. E, em nosso cansaço, ansiamos por mais um ano novo. E tudo se repete...

Porém, em qualquer tempo, o “outro eu”, que gostaríamos de abandonar no “ano passado”, teima em se fazer presente neste ano. Ainda que não queiramos, também somos o resultado do passar do tempo. Não podemos esquecer a nós mesmos no tempo que passou, como se o anúncio do novo ano representasse uma espécie de acerto de contas.

Mesmo assim, fazemos planos. Transmitimos nosso desejo aos amigos e aos que amamos e, especialmente a nós mesmos, que neste ano tudo será diferente. Desfazemos-nos de determinados objetos, procuramos dar termo às pendências e limpamos as gavetas, as reais e simbólicas. E ainda que tenhamos que carregar as dívidas, nos prometemos, e aos outros, que terão um tratamento diferenciado e que, neste ano, nos livraremos delas.

Fazemos vistas grossa à dialética da vida. Teimamos em cindir o tempo passado e presente e idealizamos o “ano novo” como o início de um tempo capaz de realizarmos o “eu” que almejamos. Na busca de forças para resistir às agruras que a realidade impõe, necessitamos ardentemente da sensação, ainda que por breve momento, de que superamos as misérias do tempo que passou. Mas estas nos perseguem e impregnam o nosso ser, o nosso tempo. Elas permanecem à espreita e se introduzem em nossas vidas a despeito dos nossos desejos e felicitações mútuas de um FELIZ ANO NOVO! As rupturas não ocorrem apenas pela vontade idealista e formalidades próprias desta fase. A nova realidade contém a velha...

Contudo, nos lixamos para a dialética. É uma necessidade psicológica. Precisamos, ao menos, atenuar o sofrimento. São trincheiras mentais que nos ajudam a suportar a realidade. Construímos esta noção do tempo como um anteparo à angustia do viver. É-nos difícil admitir que o “ano novo” indica apenas que o ciclo da vida se aproxima do seu desfecho. A natureza tem o seu tempo, e este, este sim, não pára. Ele passa e nos enterra...

Feliz Ano Velho... e Novo!

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* Publicada em 09/01/2007, em http://antoniozai.blog.uol.com.br/

8 comentários:

Rita de Cássia Souto Maior S. Lima disse...

[Rita de Cássia Souto Maior S. Lima] [ritasoutomaior@hotmail.com] [Maceió/Al]

Neste mundo de faz-de-conta, faço de conta que sou diferente e assim idealizo um final feliz. Mas, no fundo, no fundo, há lampejos de verdade nessa falsa história e nesses momentos de luz (negra), sofro a angústia que não sei de onde nem porquê e morro um pouquinho. Um desses momentos é a patética festa de fim de ano. Todo fim de ano é o fim de um pouco de mim. Tento sorrir e responder as felicitações: "Obrigada. Para você também meu amigo, minha amiga...!" Mas o que é que eu desejo mesmo? Maldade humana da verdade. Ozaí, o que mesmo desejamos?

10/01/2007 21:11

Karim Roberta de Almeida disse...

[Karim Roberta de Almeida] [karimralmeida@yahoo.com.br] [São Paulo]

Respondo através da poesia : "..Quem teve a idéia de cortar o tempo em fatias foi um indivíduo genial, industrializou a esperanaça, fazendo funcionar no limite da exaustão. Doze meses dão pra qualquer ser humano se cansar e entregar os pontos.Aí entra o milagre da renovação..e tudo começa outra vez, com outro número e outra vontade de acreditar que daqui por diante vai ser diferente."Carlos Drummond É essa Antonio a dialética da vida, nascer, crescer e morrer.. E viver como se cada dia fosse único!!

12/01/2007 02:47

Anny Kátia disse...

[Anny Kátia] [annykatia@hotmai.com] [maringá - Paraná- Brasil]

Adorei o texto Feliz ano velho e novo. Faz refletir vários pontos na vida e da rotina que simplesmente são ignorados para que possamos dar lugar a uma esperança que no fundo até nós mesmos sabemos que é um apego de esperança de que tudo vai mudar e melhorar e torcemos para que nimguém chegue em nós e nos diga que estamos errados enganados e iludidos. Porém, tudo nao passa de uma grande iluzão para que a vida se torne mais leve. Um grande abraço Anny

12/01/2007 19:09

Waney Tonietti disse...

[Waney Tonietti] [toniettimaringa@yahoo.com.br] [Maringá - PR]

Parabéns pelo texto, muito bom. Destaque especial para esta fantástica frase : "São trincheiras mentais que nos ajudam a suportar a realidade".

16/01/2007 02:34

Phillipe disse...

engraçado ler seu texto, dia 02 de janeiro escrevi algo "quase" na mesma linha. Ainda não enviei em decorrência de viagens. Mando-lhe em breve Ozaí, espero que goste.
um forte abraço.

Leandro disse...

Não vou enveredar pela questão do tempo, linear ou cíclico, nem discutir se nossa vida é uma repetição ou se cada dia é um dia diferente. O fato é que o "Ano Novo" não é tão novo assim, mas também não vai ser igualzinho ao "Ano Velho". É a antiga discussão entre o protagonismo da estrutura ou do indivíduo. O que pretendo realmente observar é que é preciso se alinear um pouco, "entrar nas trincheiras", caso contrário o cepticismo, perfeitamente aceitável na atual conjuntura, tornaria a vida ainda mais difícil. Todavia, devemos tomar cuidado para não cair no extremo oposto!

Urariano disse...

Meu amigo Ozaí, textos como este seu reforçam na gente a certeza de que a boa prosa está fora das páginas impressas. Abraço fraterno, Urariano.

Olga disse...

Concordo com o que o Leandro disse. Não devemos ser tão radicais pensando que todos os Anos são iguais aos anteriores e por isso comemorar o ano que chega é uma maneira de se esconder da realidade, ou melhor, se proteger dela. Vc já pensou como aumentaria o número de mortes (principalmente suicídios) se não houvesse esta esperança de algo melhor. Mas acho que esperança é algo que sobra no ser humano, o que falta mesmo é a coragem para arregassar as mangas e fazer o ano ser diferente!

Nossa! Filosofei agora hein! hehehehehe... normal! sendo filha de quem sou! xD