sábado, 22 de dezembro de 2007

O Espírito do Natal

O “espírito do natal” impregna o ar. Ele está nos lares e nas almas bondosas que habitam este planeta. Através da TV e da Internet irradia imagens e mensagens que, como um imperativo categórico, apoderam-se das nossas mentes. Ele está nas ruas, nas lojas, em shopping center e nas calçadas onde se ofertam tudo o que o materializa. Até mesmo na rua em que moro, uma voz, amplificada pelo som de um carro que passa, anuncia que a “farmácia tal” deseja Feliz Natal e etc. Um vereador do bairro teve a mesma idéia. Quanta emoção!


É impossível se desvencilhar do espírito natalino (Eis a tirania da maioria!). Ele se traduz em belas palavras repetidas mecanicamente e à exaustão. A Internet contribui para propagá-lo. Empresas e indivíduos, para quem somos apenas um email, enviam cartões de natal, sons e slides em PowerPoint, imagens e palavras que emocionam. Basta que façamos parte do seu catálogo de endereço. Com apenas um clique enviam milhares de emails. Os computadores são infestados pelo “espírito natalino”. Seria um novo tipo de vírus?! Mensagens formais que alimentam o “espírito do comércio” e os egos esvaziados de sentido real. Tudo muito impessoal.

Tento compreender. Fico a pensar se devo enviar votos de “Feliz Natal e Próspero Ano Novo” para os mais de oito mil emails do meu catálogo de endereços. Seria uma boa estratégia para espalhar o bem e fortalecer a “corrente do bem”? Desejar o bem sem olhar a quem deve fazer bem a quem o deseja. Mas não soa falso fazê-lo dessa maneira? Entre estes milhares de emails conheço alguns pessoalmente e outros representam amizades virtuais. Com estes a relação é direta e individualizada. De qualquer forma, desejo, de coração, o bem de todos, inclusive aos que não conheço.

Reflito longamente e termino por me sentir mal. Sim, porque só uma pessoa não imbuída do “espírito natalino” pode ser tão má a ponto de se diferenciar dos milhões de indivíduos imersos num clima de imensa felicidade. Imagino o que pensam os caros leitores sobre a minha audácia. Os mais condescendentes devem se perguntar se não tenho problemas psicológicos; os críticos talvez pensem em romper as relações, ainda que virtuais.
Recordo de Um Conto de Natal, de Charles Dickens, e do avarento Ebenezer Scrooge, que odeia o natal e pensava apenas nos lucros. Se vivesse hoje, saberia que o natal é um bom negócio e estaria muito feliz. Não sou como ele. Parafraseando Max Weber, tenho ojeriza ao “espírito capitalista do natal”. Dickens mostrava que o “espírito burguês” era uma chaga capaz de se alastrar e aniquilar os bons sentimentos e valores. De certa forma anunciava no que o natal se transformaria sob o capitalismo moderno.
Lembro ainda de Grinch, outro personagem mal-humorado que não aceita o “espírito natalino” e arquiteta um plano para arruinar a festa de natal dos habitantes da pequena Quemlândia (Whoville). Porém, até mesmo indivíduo tão malévolo, capaz de roubar o natal das crianças, se rende ao “espírito do natal”. Será que sou mais malevolente? Adoro crianças, mas elas não me contagiam com o seu entusiasmo natalino e a sua avidez pelos presentes.

Devo ser mesmo muito ruim! Ainda assim, reconheço a bondade dos outros e não sou ingrato a ponto de recusar os votos de Feliz Natal. Se muitos me desejam o bem, talvez eu o alcance. Ademais, para além das formalidades e hipocrisias próprias desta época, existem os sinceros, ainda que expressem seus sentimentos por emails. Meu sincero muito obrigado!

Há também os que amamos e que, no final das contas, terminam por nos envolver em seus mais puros sentimentos. O Natal passa, mas eles permanecem presentes em nossas vidas e em nossos corações. Eis o mais importante.

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* Publicado originalmente em http://antoniozai.blog.uol.com.br, em 23 de dezembro de 2006.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

Uma formatura especial

Confesso que não gosto de formaturas. Mesmo as minhas, compareci apenas à entrega de diploma do curso de mecânico no SENAI de São Bernardo do Campo (SP). Tenho vaga lembrança do evento, mas recordo que fomos instruídos a nos vestir a rigor, ou seja, de paletó e gravata. Éramos chamados à frente para receber o diploma. Fui porque não havia outra alternativa. Foi nos meus saudosos e longínquos 17 anos de idade.

Sempre estudei em escolas públicas e, que eu recorde, não houve formatura no ginásio e colegial (como se chamava naquela época). Se houve, não fui. Na graduação, fiz Ciências Sociais na Fundação Santo André, havia a comissão de formatura. Lembro o dia em que seus componentes foram à minha turma buscar adesões. A reação da maioria foi de recusa e eles, coitados, saíram decepcionados. Talvez tenham nos achado um bando de gente esquisita. “Onde já se viu, não querer fazer formatura?!” Não fizemos do jeito deles, mas nos organizamos, alugamos uma chácara e passamos um final de semana nos divertindo.

Fui à outra formatura, na creche das minhas filhas. Foi algo simples, que fez bem ao ego das crianças, das educadoras e, é claro, aos pais envaidecidos. Desde então, não fui a outras formaturas. Não fico imune às críticas, mas parece que elas me entendem.

Como professor, tento ser compreensivo diante do envolvimento entusiástico dos alunos em suas formaturas. Nisto, apesar dos problemas que aparecem, mostram um grau de organização e autonomia admirável. Também é de admirar o esforço de muitos para, a despeito dos parcos recursos financeiros, participar destes momentos. As empresas que vendem esses serviços têm técnicas de propaganda que os estimulam. Compreendo o esforço e orgulho, deles e dos familiares, para realizar a formatura. Mas ainda não compareci a tais eventos. Pago o ônus por agir assim.

Recentemente, tentei superar esta aversão. Fui a uma formatura que se revelou diferente. Foi no Centro de Convivência João Paulo II, em Maringá, que abriga cerca de vinte idosos. Não é um asilo como imaginamos. Os idosos ficam apenas no horário comercial e de segunda a sexta-feira. O carro da entidade busca e leva-os às suas residências. Eles são oriundos de famílias que não têm condições para pagar quem cuide deles. O projeto é da Renovação Carismática Católica, conta com a ajuda da prefeitura, que fornece dois funcionários, o trabalho voluntário de pessoas vinculadas às instituições universitárias e doações em geral.


Catorze participaram da formatura de um projeto de alfabetização. Foi comovedor vê-los recebendo os diplomas. Observei o brilho em seus olhos, o sorriso estampado em suas faces enrugadas e a expressão de orgulho. Claro, é uma conquista significativa, em especial se considerarmos a idade elevada deles. É admirável como se envolveram.


Foi uma formatura diferente, mas também teve o seu lado formal. Uma das empresas promotoras de formaturas fez a sua boa ação e emprestou as becas. Era interessante, e ao mesmo tempo entenercedor, vê-los naquelas vestimentas. Para eles, como para um jovem que se forma no ensino superior, aquele era um momento muito especial. Considerando-se as dificuldades que tiveram em suas vidas, e que os impediram de estudar, foi realmente um dia inesquecível.



Ainda que comovido e reconheça a importância do trabalho de instituições como o Centro de Convivência João Paulo II, fico a pensar que o fato em si indica o quanto estamos distantes de uma sociedade cujos idosos não precisem fazer curso de alfabetização. Deve haver algo errado com uma sociedade na qual seus idosos dependem da caridade para aprender os rudimentos da escrita e leitura!

PS.: Este texto foi publicado originalmente em 22 de janeiro de 2007, em http://antoniozai.blog.uol.com.br. Lembrei dele estes dias ao participar da formatura da Luana, minha filha. Ela se formou em inglês, no Instituto de Línguas da Universidade Estadual de Maringá. Agora já sabe o que significa “I love you”, “Open the door”, “The book on the table” etc. (brincadeira!) Foi um evento, como todos deste tipo, formal e ritual. Porém, simples. Um dos momentos que me chamou a atenção foi quando os representantes das turmas pronunciavam um discurso na respectiva língua em que se formavam (inglês, francês, espanhol e italiano). Foi até engraçado, pois, salvo os professores, os formandos de cada turma e algum poliglota da platéia, a maioria não entendia o que falavam, mas ficava em silêncio respeitoso. Dava até para compreender algumas palavras! Participar deste evento me fez compreender melhor o significado destes rituais para os professores, pais e, especialmente, os formandos. Foi uma fase da vida deles que se concluía e todos, inclusive este que vos escreve, estavam orgulhosos. Parabéns à Luana Ozaí da Silva!
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* Agradeço a Waney Tonietti e Marcos Fagner Ribeiro (na imagem acima com uma das formandas), que gentilmente cederam as fotos.

sábado, 15 de dezembro de 2007

O culto ao líder

“Duvide. Nenhuma fé até hoje foi tolerante. A dúvida é a tolerância. A fé levantou fogueiras, a dúvida não as levantará jamais. Toda fé é uma tirania e todo crente é um escravo. Não acredite”
Vargas Vila
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O culto à personalidade é uma espécie de patologia que acomete as diversas gerações que se fanatizam em torno dos “ismos” que gravitam da extrema-esquerda à extrema-direita. A esquerda tem os seus heróis; a direita também. Os seguidores dos profetas, armados ou desarmados, veneram seus ícones à maneira religiosa e maniqueísta. E, assim, os “pequenos profetas”, discípulos e apóstolos da razão, digladiam-se em nome do “bem” e do “mal”, da “linha justa”, valores que dependem da ideologia de cada um.

Os grandes dilemas históricos da humanidade parecem se encarnarem no papel desempenhado por determinados indivíduos. É interessante que a crítica à concepção da história fundamentada na ação de indivíduos heróicos, seja acrítica quando se trata daqueles que venera. Mudam os nomes e os que eles representam, mas parece que todos, à direita e à esquerda, precisam de heróis.

As ações, opções e idéias dos indivíduos, especialmente quando ocupam posições influentes no aparato do Estado e/ou na sociedade, tem importância e devem ser consideradas. Mas eles agem e reagem sob condições históricas específicas. Não é possível compreendê-los plenamente sem levar em conta este fator. Restringir-se ao âmbito individual é desconsiderar a interação dialética entre estes e os contextos históricos das sociedades nas quais atuam; é desconsiderar as contradições e interesses dos grupos e classes sociais na relação com o líder.

Porém, os líderes falham e perecem – embora alguns se tornem imortais nos corações e mentes das gerações vindouras. Todo líder que se preza, mesmo o que expressa o “mal”, sempre a depender da identificação ideológica, tem o seu séqüito. Mesmo os “pequenos líderes”, aqueles cujo raio de ação se restringe a espaços exíguos como a sala de aula, geram os seus seguidores.

De onde vem essa necessidade de seguir o líder? Uma explicação plausível reside no fato dos líderes sintetizarem as ideologias e de, geralmente, terem o controle dos meios econômicos, políticos e simbólicos para que os “ismos” se materializem. Mas há líderes que nada tem a oferecer, a não ser a vaga promessa da utopia e, mesmo assim, arrebanham discípulos. Será que isto se explica apenas pelo carisma? O líder carismático produz “milagres profanos” como convencer os incautos a segui-lo, mesmo que em direção ao abismo, e a compactuar com meios que negam os fins redencionistas.

Os discípulos tendem a reverenciar o líder, de forma acítica e submissa. O que explica a a necessidade de obedecer? Talvez a obediência seja uma maneira de eliminar a angústia da dúvida e se sentir seguro. Quem obedece cegamente perde o senso crítico, não ousa pensar com a própria cabeça e desafiar a verdade transformada em dogma.

Compreendo a necessidade humana de agir como ovelhas e passar a vida a obedecer o “pastor” e a repetir suas verdades. Talvez a “servidão voluntária” proteja do desespero. Quem sabe, o culto ao líder conforte! Sempre há a esperança da recompensa, de alcançar o “paraíso”. No fundo, quem se submete é tão inseguro quanto a personalidade autoritária que cultua. Em seu âmago, teme a liberdade e execra a dúvida. Por isso, se recusa a pensar criticamente, basta-lhe repetir os slogans do líder e segui-lo.

O culto ao líder cega em todos os sentidos. Mesmo assim, se revigora. Contraditoriamente, alimenta-se na fonte da tradição e manifesta-se na adesão a novos líderes. Há sempre indivíduos ávidos de seguirem os novos profetas com suas promessas de redenção da humanidade.
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* In: BAZZO, Ezio Flavio. Assim falou Vargas Vila. Brasília, Companhia das Tetas Publicadora, 2005. Sobre este livro sugiro a leitura do texto “Assim falou Vargas Vila” – Anátemas sobre livros, amizade, política, religião etc.”, publicado na Revista Espaço Acadêmico, nº 61, junho de 2006.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2007

A morte de um ditador!

Afirma o dito popular que os ruins demoram a morrer. A morte do general Pinochet parece confirmar o ditado. Foram 91 anos, muitos dos quais marcados com as lágrimas e o sangue dos inocentes. Porém, ainda que a sua longevidade pareça reafirmar o dito, todos morrem. Até mesmo os que detêm o poder de vida e morte sobre os semelhantes. E a vida não é só o passar dos anos, mas o que fazemos dela.

Muito se escreveu, e mais ainda se falou sobre as maldades do morto ilustre. E se não o fosse, o mundo não se importaria. Que aquele cujo nome é melhor não pronunciar o tenha! Não obstante, o olhar arguto se dirigirá para além do bem e do mal. O maniqueísmo tende à miopia política. Os que vêem os tiranos pelos óculos da moral maniqueísta não compreendem os fundamentos do seu domínio. A tirania não se impõe apenas pela natureza má do tirano. Os ditadores se sustentam pela força, mas eles precisam se legitimar, isto é, conquistar o apoio ativo e passivo da sociedade. Há os que são silenciados através do assassinato, e toda tirania deixa um rastro de sangue e sofrimento. Mas há também os que silenciam por tacitamente aceitarem a ordem ditatorial em nome da segurança dos seus interesses privados. Sem a legitimação de amplas parcelas da sociedade nenhuma ditadura subsistiria. Em outras palavras, nenhum governo se sustenta apenas pela violência.

A resistência, em maior ou menor grau, se faz presente. Mas isto não impede que a maioria, ativa ou passivamente, termine por aceitar a nova ordem política. É claro que o medo tem um papel fundamental, mas é insuficiente para explicar este processo. O novo regime também conquista adeptos pelas oportunidades que oferece.

Portanto, é preciso que analisemos porque a sociedade termina por legitimar as ditaduras. Do contrário, corre-se o risco de resumir a complexidade política à biografia dos ditadores. Não é suficiente conhecer a trajetória de indivíduos como Hitler, Franco e Mussolini, é necessário apreender como o povo alemão, espanhol e italiano os legitimaram naquele contexto histórico. O mesmo em relação ao general morto. É preciso se perguntar porque, a despeito de todas os fatos históricos, ainda resiste o apoio ao ditador. As raízes do autoritarismo são mais profundas do que as frágeis árvores da democracia.

Mortes como esta me fazem pensar sobre a complexidade do ser humano. Não me é menos impactante as imagens dos que rezam, choram e tratam o morto como uma espécie de herói nacional do que as que mostram os festejos por sua morte. Tento compreender. A morte do ditador não trará de volta os milhares de mortos dos que resistiram ao seu despotismo. Por que choram? Por que festejam? O ser humano é muito mais complexo do que as nossas análises políticas. Ainda que tomemos posição, e não há como ser neutro, permanece o desafio de compreender o outro e a nós mesmos.

Que os mortos sigam os seus caminhos. O importante é aprender com a história, com o que fizeram em vida. Que seus fantasmas não nos assombrem, pois sempre há, entre os vivos, aqueles dispostos a ressuscitar as idéias. Estas, infelizmente, sobrevivem ao enterro do morto.

Por fim, parece-me não ser de boa medida retomar a contabilidade fúnebre dos que passam a comparar os números de mortos nas ditaduras de direita e de esquerda. Esgrimir tal contabilidade tende a nivelar os “pecados” de uns e outros e, no limite, a justificar o injustificável. Tal raciocínio contábil tende a banalizar a história e, no limite, a produzir uma espécie de soma zero. Afinal, se a violência é o fundamento da política, nem mesmo a democracia está imune. Ela também produz os seus mortos.

Ps.: O ditador morreu em 10 de dezembro de 2006. Este texto foi publicado no dia seguinte, em http://antoniozai.blog.uol.com.br/arch2006-12-10_2006-12-16.html. Penso que não devemos esquecer, pois os ditadores, mesmo mortos, assombram os vivos e estimulam seguidores.

sábado, 8 de dezembro de 2007

Loucura, paixão e razão

para a Juliana


Sou palmeirense! Deveria ter ficado contente com a queda do arqui-rival. Deveria ter torcido para que a tragédia anunciada se consumasse. Estranhamente, isso não ocorreu. E, mais estranho ainda, terminei por me ver solidário e até sofri com o sofrimento da torcida do não mais “todo poderoso timão”. O que explica tamanha metamorfose? É simples: o amor de pai é maior, imensamente maior, do que o amor ao Palmeiras. E não se trata apenas do sentimento paterno, mas deste se referir a alguém muito especial; capaz de me fazer sentir emoções contraditórias, de me fazer admirar e respeitar o oponente e, assim, aprender a tolerar o intolerável. Que seja bem entendido: não torci pelo Corinthians. A minha heresia não chegou a tanto. Apenas torci para que o “inimigo” não caísse.

A saga do Corinthians assumiu a feição de uma tragédia. O paradoxo da quase certeza de que o time não tinha qualidade para se manter na divisão superior e a esperança, renovada a cada jogo, se traduziu no sofrimento contínuo e renovado, até o apito final do último embate. A angústia chegara ao fim, o mundo caía. Quem acompanha futebol, provavelmente não se manteve insensível diante do que viu.

Chamou a atenção a demonstração de amor e fidelidade ao time. Nos jogos, a torcida, em uníssono, cantou:

“Aqui tem um bando de louco
Louco por ti CORINTHIANS!
Aqueles que acham que é pouco
Eu vivo por ti CORINTHIANS!”

Foi uma catarse coletiva que beirou a irracionalidade. Afirma-se a loucura, algo incompreensível a quem não partilha as emoções de se identificar apaixonadamente pelo time que escolheu por toda a vida. Para os que não se apaixonam, a loucura da paixão é apenas irracionalidade. E, de certa forma, têm razão. O louco é capaz de tudo pelo amor declarado. Quem não cometeu enormes bobagens e caiu no ridículo, diante de um grande amor? Lembro-me e rio do que fiz por amor! E nestas circunstâncias, não nos parece irracional declarar e viver esse grande amor. É ele que nos sustenta, que dá razão ao viver. O “louco por ti” indica simplesmente uma necessidade humana, demasiadamente humana. E isto não deveria estranhar.

Concordo que não é fácil compreender um amor tão intenso, especialmente quando este se refere a um time de futebol. “Coisa de alienados!”, dizem alguns! “Loucos!”, afirmam outros. “Um bando de irracionais e fanáticos!”. Sim, a loucura do amor é irracional, perdemos o controle sobre o que pensamos, falamos e fazemos. O amor incondicional é capaz de tudo, sem medo do risível. E, no caso do time, há o perigo do grupo, coletividade, manifestar tamanho amor de maneira fanática. E o fanatismo cega, é intolerante e perigoso, sempre. Paradoxalmente, apesar de tudo, também é humano, demasiadamente humano. O desafio é compreender.

No último ato da tragédia corintiana, o amor incondicional explodiu em choro incontido de homens e mulheres de todas as idades; a emoção exposta em toda a sua intensidade. Aos que nunca choraram de alegria ou de tristeza, que nunca se apaixonaram perdidamente, tal visão é estranha, incompreensível e irracional. Se pensarmos bem o que é o futebol na sociedade atual e a dificuldade de compreender a identificação dos indivíduos com um símbolo, parece que somos mesmo irracionais.

Mas esta é uma “loucura” sob controle. O mundo volta a girar e nos encontramos na realidade deste. É uma paixão. E a capacidade de se apaixonar é o que nos diferencia dos outros animais. Só assim é possível entender as razões deste “bando de loucos”; só assim é possível compreender as razões de um pai palmeirense, mas solidário à filha corintiana. Como palmeirense, nunca imaginei que compartilharia deste sofrimento. Como pai, compreendo!

sábado, 1 de dezembro de 2007

Aids e Política

Os números são frios e estarrecedores! Ao mesmo tempo, passam a sensação de que não nos dizem respeito, pois estão distantes do nosso cotidiano. Não é comum acreditarmos que as desgraças só acontecem com os outros? Aparentam ser apenas notícias sobre fatos que estão além das nossas forças. Resta-nos contemplar e, assustados, torcer para que tais desgraças não ocorram conosco e entre os nossos. Então naturalizamos o que nossos sentidos recusam incorporar. Se isto falha e nos chocamos, é passageiro. Os números, tristes números, têm o risco da banalização do real que, ainda assim, teima em ferir nossos sentimentos.

Como não se inquietar quando descobrimos que o que nos parece um problema de uma minoria da população é também nosso problema? Como não se perturbar quando sabemos o quanto a Aids incide sobre as mulheres e as crianças? Há muito não se trata mais de limitar a Aids a grupos de riscos ou aos que têm comportamentos de riscos. Há muito que o preconceito contra os homossexuais deixou de ser argumento para os moralistas.

A Aids se expandiu para todos os setores, atingindo as mulheres pobres, com parceiros fixos ou não, e em idade reprodutiva. Vítimas da cultura machista e até mesmo sem condições de comprar preservativos, as mulheres, casadas ou não, são infectadas por seus parceiros, que teimam em desafiar a sorte mesmo quando sabem dos riscos que correm.

Nos países desenvolvidos, ou mesmo no Brasil, o acesso ao coquetel antiviral atenua o sofrer e, paulatinamente, transforma a trágica descoberta da contaminação em resignação e esperança de poder conviver com o vírus e estender o tempo de vida. Esta certeza produziu o paradoxo da condescendência: baixa-se a guarda, descuida-se do sexo seguro e dos métodos preventivos. Ampliam-se os riscos de contaminação, inclusive através de acidentes de trabalho entre os profissionais da área da saúde.

Na África, a Aids assume ares de tragédia, comparável à epidemia da peste que atingiu a Europa medieval. Que esperança pode ter o soropositivo de países como Zimbábue, Botsuana e África do Sul? No continente africano, as vítimas são, em sua maioria, pobres. Isto significa que a maioria dos contaminados está condenada a morrer de forma rápida, pela simples e sinistra combinação entre a Aids e outra doença social: a miséria.

Números, números e mais números... Qual a relação com a política? Esta parece uma daquelas questões cuja obviedade anula a necessidade da resposta. Não é bem assim. A Aids é uma questão de saúde pública. Os progressos no tocante ao comprometimento do poder público em relação à Aids é fruto da pressão dos diversos grupos que levantaram-se indignados contra a forma preconceituosa como a doença era tratada na mídia, na sociedade e mesmo no campo da medicina. Passava-se a idéia de que era coisa de homossexual. E foram os militantes deste movimento que resistiram. Esta foi uma fase sobretudo defensiva, diante do preconceito e do terror gerado pela contaminação.

Quando os governos desenvolvem políticas que aprofundam a pobreza e a miséria, deteriorando cada vez mais as condições de vida da maioria da população, a saúde pública torna-se uma questão essencialmente política. Isto num contexto de crescente número de contaminados pelo HIV entre a população de baixa renda agrava o problema e aumenta a nossa responsabilidade. Há muito que a Aids não é mais algo restrito à minoria da sociedade. Mais do que nunca é uma questão política.

P. s.: Este texto foi publicado há quase um ano atrás, exatamente em 03 de dezembro de 2006, no site http://antoniozai.blog.uol.com.br/. Infelizmente, permanece atual.