sábado, 7 de novembro de 2009
Sobre muros reais e simbólicos
Pensando bem, não é um imenso absurdo os muros fictícios e reais que interpomos em nossas relações? São muros de concreto, cercas de arames, barreiras formadas por humanos armados e artefatos tecnológicos. Francisco de Goya (1746-1828) afirmou que “O sonho da razão produz monstros”. Ele viveu o suficiente para ver a “razão” personificada nos soldados franceses e suas baionetas, sob o domínio de Napoleão.[1] Os horrores da guerra, em nome de valores universais como a Liberdade, foram registrados em sua obra.[2] Se tivesse vivido o século XX, teria testemunhado o terror de Estado protagonizado por governantes do tipo Stalin e o horror nazista na Alemanha. Teria, ainda, presenciado duas guerras mundiais, a “guerra fria” e a construção do Muro de Berlim. Quem sabe teria pintado outro quadro com estas palavras: “A razão em ação também produz monstros”.
O século XX marca a crise da razão iluminista. A idéia de progresso, que acalentou o sonho da liberdade e desenvolvimento humano numa perspectiva ascendente, caiu por terra. O iluminismo, como sugere a expressão, almejava libertar os indivíduos das trevas, das superstições e preconceitos religiosos. A fé cega e intolerante deveria ser substituída pela razão. E a crença na potencialidade desta foi tão forte que influenciou os espíritos mais iluminados da época, inclusive os que criariam ideologias políticas como o marxismo e o anarquismo.
E foi sob a inspiração da ideologia marxista que se realizou a primeira revolução proletária de vulto: a Revolução Russa. A razão, instrumentalizada pelo partido de vanguarda, parecia dar início a uma nova era, à aurora da sociedade humana fundada em princípios solidários e igualitários. O que se seguiu foi a instituição da ditadura do partido e, depois, do “guia genial dos povos”. A revolução tornou-se o seu oposto. Nascia, assim, aquilo que conhecemos como “socialismo realmente existente”. Paradoxalmente, muitos dos países que viriam a orbitar em torno da “Meca do socialismo”, a URSS, se autoproclamaram “democracias populares”.
O Muro de Berlim foi um dos resultados mais visíveis desse processo histórico. Hoje, é patente o disparate representado pela sua construção. Quantas vidas humanas foram ceifadas pelo simples desejo de ultrapassá-lo? Quanto sofrimento causou? No entanto, é sintomático que encontre defensores entre os próprios alemães submetidos à separação forçada e mantida por ideologias em conflito. De novo, a vítima é a razão: as ideologias temporais intentarem superar a irracionalidade fundada em sentimentos e valores religiosos, mas, à sua maneira, subverteram a razão, tornaram-se irracionais e assumiram o caráter de uma espécie de religião profana. Só assim é possível compreender a cegueira que obscureceu a lucidez dos cidadãos, os quais, passiva ou ativamente, legitimaram regimes políticos autoritários e atos como a construção do Muro de Berlim. Certo, há o medo, o poder policial, o terror de Estado tão bem descrito em obras literárias como “1984” (George Orwell). Mas não devemos desconsiderar o poder de convencimento das ideologias seculares e mesmo a tendência à servidão voluntária.
A construção de muros parece ser uma exigência ditada pela necessidade humana de se sentir seguro. Talvez isto explique porque, 20 anos após a derrubada do muro de Berlim, haja tantos muros, físicos e simbólicos, a nos separar. O processo de segregação continua, o apartheid social ergue-se como um gigantesco muro a dividir povos e nações e o nacionalismo xenófobo oferece a sua contribuição. Ainda há muitos muros a derrubar!
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[1] Ver o filme “Sombras de Goya”, Espanha, 2006. Direção: Milos Forman.
[2] Esta experiência inspirou Goya a produzir as obras O 3 de Maio e A Carga dos Mamelucos, e também, a série de gravuras Os Desastres da Guerra.
sábado, 31 de outubro de 2009
Revista Urutágua: uma experiência de aprendizado democrático e intelectual
Abertura do evento Educação & Sociedade: reflexões e debates para a contemporaneidade, por Jonas Jorge da Silva - Da esquerda para a direita: Raymundo de Lima, Antonio Ozaí da Silva, Jonas Jorge da Silva e Luiz Antonio Afonso Giani (29.10.2009, UEM - Foto: Tiago Valenciano).Desde as origens, o primeiro número é de maio de 2001, a participação discente na Revista Urutágua é uma prioridade. Não foi por acaso, portanto, que o primeiro evento organizado tenha a participação predominante dos discentes, os quais tiveram voz ativa desde a idéia inicial proposta pelo Jonas. Mais do que restringir-se à formalidade dos procedimentos próprios aos periódicos do campo acadêmico, geralmente restritos e sob controle dos docentes, a Urutágua sempre incentivou a presença dos graduandos. Seu objetivo, desde o início, é incentivar a leitura, pesquisa e a elaboração intelectual dos discentes, abrindo espaço prioritário para a publicação pelos graduandos. E isto, sem paternalismo ou proteção.[2]
Na práxis do Conselho Editorial não há distinções determinadas por titulações.[3] Todos têm os mesmos direitos e deveres. Sua composição é determinada pelo compromisso com a revista. Os textos submetidos à apreciação são distribuídos entre os membros do Conselho Editorial, os quais lêem e emitem avaliações. Em reuniões realizadas quadrimestralmente discutem-se os pareceres e, democraticamente, decidimos. Os textos aprovados nesta fase são, então, encaminhados aos avaliadores externos.
Esta prática tem se revelado não apenas um espaço no qual se exerce a democracia, mas também um fórum de aprendizado mútuo. Um fator que contribui para isto é o caráter multidisciplinar e pluralista da revista. Não há veto ideológico à participação no conselho, garantindo-se a diversidade necessária para o debate democrático. Por outro lado, a leitura, avaliação e discussão sobre os textos submetidos à publicação, num ambiente de respeito mútuo, contribui para a formação intelectual de todos. Dessa forma, a atividade de membro do conselho editorial acaba por se tornar parte de um processo educativo, tanto no que diz respeito às relações de poder no campo acadêmico quanto em relação ao saber.
Nestes mais de oito anos, a experiência da Revista Urutágua comprova a possibilidade de uma prática democrática que envolva docentes e discentes. Por outro lado, ela mostra que não há uma relação automática entre saber e titulação, entre escrever bem e ser titulado. Ainda que os saberes pressuponham a especialização, isto é, que sejam próprios de especialistas, nada impede que qualquer membro do conselho editorial possa ler e avaliar, até porque se trata de uma primeira avaliação. Ao fazer isto, aprende-se. Como a avaliação é cega, isto é, nem os avaliadores internos ou externos conhecem a autoria e titulação, o processo demonstra que escrever bem não depende necessariamente de títulos acadêmicos.
Em suma, a Revista Urutágua é uma experiência que mostra a potencialidade intelectual dos acadêmicos e que é possível o exercício da democracia entre professores e alunos, desde que todos desçam do Olimpo e assumam a ignorância relativa inerente ao conhecimento humano.
[1] Agradeço também a todos que fizeram e fazem parte do conselho editorial da revista e a todos os colegas que aceitara contribuir enquanto membros do conselho de consultores, o que tornou possível a realização deste projeto; agradeço também à chefia e vice-chefia do Departamento de Ciências Sociais (UEM), Walter Praxedes e Geovanio Rossato, pelo apoio à realização do evento.
[2] Os artigos submetidos pelos acadêmicos passam pelo mesmo processo avaliativo de outro autor que, por exemplo, tenha doutorado. Ambos são avaliados pelo conselho editorial e, se aceitos nesta instância, encaminhados aos pareceristas da revista; apenas diferem no fato de que o trabalho do graduando, considerando-se que geralmente já tem o aval de um professor, do seu orientador, é enviado para um parecerista, ao invés de dois como é o caso dos autores que já são graduados.
[3] Conselho Editorial da Revista Urutágua: Antonio Ozaí da Silva, professor na UEM (Editor); Vinícius Costa Souza, graduando em Ciências Sociais na UEM (Co-Editor); Cássio Augusto Guilherme, formado em Direito e graduando em História (FAFIPA); Ciro Henrique Afonso Garcez, graduando em Filosofia na UEM; Givaldo Alves Silva, professor na FAFIPA; Giuliano Gomes de Assis Pimentel, professor do Departamento de Educação Física (UEM); Jonas Jorge da Silva, mestrando em Ciências Sociais (UEM); Meire Mathias, professora (DCS/UEM); Phillipe Tadao Sakai, graduando em Direito pela UEM; Rafael Egidio Leal Silva, graduado em Direito e Ciências Sociais (UEM); Tânia Braga Guimarães, professora do Departamento de Letras (UEM); Tiago Valenciano, mestrando em Ciências Sociais (UEM); Vanderlei Amboni, professor na FAFIPA eVictor Garcia Miranda, mestrando em Ciências Sociais (UEM).
sábado, 24 de outubro de 2009
Revista Mediações: produção e produtivismo acadêmico
A Revista Mediações, publicação semestral do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da Universidade Estadual de Londrina (PR), vol. 14, nº 1, 2009, traz o Dossiê “C&T: análises sobre a cultura da avaliação na produção acadêmica”.[1] Trata-se de uma importante contribuição para a reflexão sobre o produtivismo no campo acadêmico. Esta iniciativa soma-se a outras atividades e manifestações de resistência, como o Dossiê “UNIVERSIDADE EM RITMO DE MERCADO” publicado na Revista Espaço Acadêmico, nº 100, setembro de 2009.[2]
O dossiê da Revista Mediações, apresentado pela Profª Martha Ramiréz-Gálvez[3], traz excelente trabalho sobre a “cultura de auditoria”. Este termo “foi cunhado por sociólogos e antropólogos para descrever não exatamente um tipo de sociedade, lugar ou povo, mas uma condição: uma condição moldada pelo uso de técnicas e princípios modernos de auditoria financeira”, afirma Cris Shore. [4] Esta “cultura” molda subjetividades e envolve a todos: “seja na forma de verificações anuais de desempenho, exercícios de avaliação de pesquisa, ou classificação competitiva de nossas instituições”. Isto se dá de maneira insidiosa e mesmos as mentes críticas na universidade acabam internalizando e reproduzindo comportamentos determinados por esta “cultura”. Os efeitos são visíveis: aumento substancial da carga de trabalho, doenças relacionadas ao estresse, precarização do trabalho, etc. [5]
O dossiê apresenta ainda os seguintes textos:
Notas a propósito de los mecanismos de acreditación del conocimiento y de la reconfiguración de lo social – por Cecília Diaz-Isenrath.[6]
Estatísticas de citações – por Robert Adler, John Ewing, Peter Taylor.[7]
Textos de avaliação na web: para uma política de incentivo às publicações virtuais – por Zacarias Jaegger Gama.[8]
Sua revista tem Qualis? – por Antonio Ozaí da Silva.[9]
Sinfonia a muitas mãos: esboço etnográfico de um projeto científico e as vicissitudes das políticas de avaliação – por Lady Selma Ferreira Albernaz.[10]
Na apresentação do Dossiê, a Profª Martha Ramiréz-Gálvez destaca os efeitos perversos deste sistema. Observa, por exemplo, que “não necessariamente favorece a quem mais trabalha; porém a quem mais produz as provas padronizadas do seu trabalho”, isto é, atividades que não se enquadram nos formulários e padrões avaliativos não têm qualquer valor. Por outro lado, este sistema “não deixa espaço para o tempo necessário à produção de novas idéias, fruto de um processo de reflexão e amadurecimento, colocando em risco a criatividade que é parte integral da produção acadêmica”. Além disto, estimula a competição entre os pares, o que influencia comportamentos e práticas que passam ao largo da ética. [11]
Estas questões foram discutidas no evento “Fordismo da produção acadêmica”, realizado na UNESP, campus de Marília (SP), e que promoveu o lançamento da Revista Mediações. Tive a honra de ser convidado e compor a mesa junto aos professores Jair Pinheiro (Unesp) e Sávio Cavalcante (UEL). A minha fala teve como referências os textos publicados na REA, especialmente “Somos todos delinqüentes acadêmicos?”[12] e “Produtivismo no campo acadêmico: o engodo dos números”[13]; além, é claro, de “Sua revista tem Qualis”.
Foi um debate frutífero e momento de aprendizado. Ficou a certeza de que devemos ir além das manifestações individuais, pois não basta espernear ou recolher-se ao isolamento. A nossa responsabilidade é ainda maior se considerarmos a influência sobre as novas gerações. É preciso estimular atitudes críticas e atividades coletivas de resistência a esta cultura e, sobretudo, articular-se politicamente.
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[1] O Dossiê está disponível para leitura e download em http://www.uel.br/revistas/uel/index.php/mediacoes/index
[2] Disponível em http://periodicos.uem.br/ojs/index.php/EspacoAcademico/issue/view/361/showToc
[3] Ver “Apresentação: algumas considerações sobre a cultura da avaliação”, disponível em http://www.uel.br/revistas/uel/index.php/mediacoes/article/view/3340/2731
[4] Cris Shore. Cultura de Auditoria e Governança Iliberal: Universidade e a Política da Responsabilização. Disponível em http://www.uel.br/revistas/uel/index.php/mediacoes/article/view/3341/2732
[5] Idem, p.27-33 (versão impressa).
[6] Disponível em http://www.uel.br/revistas/uel/index.php/mediacoes/article/view/3372/2751
[7] Disponível em http://www.uel.br/revistas/uel/index.php/mediacoes/article/view/3348/2734
[8] Disponível em http://www.uel.br/revistas/uel/index.php/mediacoes/article/view/3349/2735
[9] Versão ampliada e modificada do texto publicado na Revista Espaço Acadêmico, nº 56, janeiro de 2006, disponível em http://www.espacoacademico.com.br/056/56ozai.htm. Na Revista Mediações está disponível em http://www.uel.br/revistas/uel/index.php/mediacoes/article/view/3350/2736
[10] Disponível em http://www.uel.br/revistas/uel/index.php/mediacoes/article/view/3351/2737
[11] Idem, p.14-20 (versão impressa).
[12] REA, nº 88, setembro de 2009, disponível em http://www.espacoacademico.com.br/088/88ozai.htm
[13] REA, nº 100, ESPECIAL, setembro de 2009, disponível em http://periodicos.uem.br/ojs/index.php/EspacoAcademico/article/view/8148/4571
quarta-feira, 21 de outubro de 2009
imagens sobre a escolarização
Pink Floyd
Another Brick in the Wall
Composição: Pink Floyd
Daddy's flown across the ocean
Leaving just a memory
A snapshot in the family album
Daddy, made especially for me
Daddy, what you leave behind for me?
All in all it was just a brick in the wall
All in all it was all just bricks in the wall
We don't need no education
We don't need no thought control
No dark sarcasm in the classroom
Teachers, leave them kids alone
Hey, teachers, leave them kids alone
All in all it's just another brick in the wall
All in all you're just another brick in the wall
We don't need no education
We don't need no thought control
No dark sarcasm in the classroom
Teachers, leave them kids alone
Hey, teachers, leave those kids alone
All in all it's just another brick in the wall
All in all you're just another brick in the wall
I don't need no arms around me
I don't need no drugs to calm me
I have seen the writing on the wall
Don't think
I need anything at all
No, don't think
I need anything at all
All in all it was all just bricks in the wall
All in all you were all just bricks in the wall
Goodbye cruel world
I'm leaving you today
Goodbye, goodbye, goodbye
Goodbye all you people
There's nothing you can say
To make me change my mind
Goodbye
escritos sobre educação
Escola: educar para quê?Escola e educação são sinônimos? A escola educa para quê? O termo “escola” tem origem no grego “scholé”, que significa “ócio”, “tempo livre”, mas também “estudo”, “aula”. O tempo de estudo é, portanto, o tempo do ócio. Atividade dos que não precisam ocupar-se com o trabalho manual. A propósito, na Grécia antiga a atividade laboral está vinculada à escravidão e, assim, concebida negativamente...
Leia na íntegra: http://antoniozai.wordpress.com/2009/10/21/escola-educar-para-que/
sábado, 17 de outubro de 2009
escritos sobre educação
A repetência nem sempre se explica pelo fato do aluno ser relapso. Ela também ocorre por fatores que não dizem respeito apenas aos estudantes (problemas estruturais internos e externos à universidade, questões concernentes à docência, etc.). Na verdade, o sistema de avaliação não é tão exigente como parece. A rigor, a nota mínima exigida é baixa e se o aluno não consegui-la tem a chance do exame final. O estudante que saiba minimamente “empurrar com a barriga” não reprova. Qual a diferença entre um aluno aprovado nestas circunstâncias e o que foi reprovado?... Leia na íntegra: http://antoniozai.wordpress.com/2009/10/17/educacao-repetencia-e-aprovacao/
sábado, 10 de outubro de 2009
Qual é a função da educação?
Qual é a função da educação? Socializar o conhecimento acumulado pela humanidade? Preparar as novas gerações para a inserção no mundo? Adaptar as crianças e jovens ao mundo gerado pelas gerações que os antecederam? Contribuir para o processo de humanização? Preparar os jovens para o mercado de trabalho? Formar cidadãos críticos e conscientes?As respostas são afirmativas. O que demonstra o quanto o processo educativo é complexo, abrangente e historicamente determinado. Isto significa que a ênfase em um ou outro aspecto do educar é determinado socialmente. Nas diferentes épocas da história, as sociedades impõem seus valores às novas gerações e, assim, geram determinadas expectativas sobre a educação. Através desta, as sociedades transmitem conhecimentos e normas de conduta padrões às crianças e jovens. O sucesso destes depende da assimilação e internalização do padrão considerado normal. Quanto mais adaptado, maior as possibilidade de que o indivíduo seja plenamente integrado.
Por muito tempo, o espaço familiar, o grupo, a comunidade, etc., foram suficientes para proporcionar o processo de socialização. Contudo, a complexidade e a extensa diversificação das funções nas sociedades modernas debilitaram sua capacidade em promover a integração social das novas gerações. A socialização das novas gerações no mundo do trabalho e na sociedade em geral passou a exigir a intervenção de instituições específicas. Paulatinamente, recaiu sobre a escola a função socializadora, ainda que a família e outras esferas da vida em sociedade também contribuam nesta direção. Não obstante, a escola passou a ser caracterizada pela função peculiar de promover o processo de socialização.
A escola enquanto instância específica para socializar as novas gerações tem uma característica essencialmente conservadora. Sua função é garantir a reprodução social e cultural dos valores e conhecimentos necessários à manutenção do status quo, à conservação da sociedade de acordo com a expectativa predominante. Esta função também é assumida por outras instituições e grupos da vida social: família, meios de comunicação, religião, mundo do trabalho, etc.
Como nota Gómez: “A escola por seus conteúdos, por suas formas e por seus sistemas de organização, introduz nos alunos/as, paulatina, mas progressivamente, as idéias, os conhecimentos, as concepções, as disposições e os modos de conduta que a sociedade adulta requer. Dessa forma, contribui decisivamente para a interiorização das idéias, valores e normas da comunidade, de maneira que mediante este processo de socialização prolongado a sociedade industrial possa substituir os mecanismos de controle externo da conduta por disposições mais ou menos aceitas de autocontrole”.*
Porém, a sociedade é repleta de contradições e também a escola, enquanto expressão desta. Além disto, a sociedade não é estática, ela se transforma pela ação dos homens e mulheres que fazem a história. O desenvolvimento social produz mudanças que exigem a reconfiguração das expectativas e exigem novas atitudes. A escola vê-se, então, diante do desafio de se adequar às novas exigências.
A função reprodutora da educação é tencionada pela tendência em “modificar os caracteres desta formação que se mostram especialmente desfavoráveis para alguns dos indivíduos e grupos que compõem o complexo e conflitante tecido social”.** Ou seja, a lógica conservadora da instituição que educa é desafiada constantemente por outra lógica, a da mudança. Educa-se, portanto, para conservar a ordem social, mas também para transformá-la. Ainda que prevaleça a educação conservadora.

